SONHOS E ENCANTOS

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segunda-feira, março 28, 2011

rubem alves


Hoje é fácil acender o fogão: gira-se um botão para o gás sair, aperta-se outro botão para produzir uma faisca, e o fogo está aceso. Naquele tempo era complicado fazer fogo. Exigia um longo preparo e uma arte delicada. Primeiro, era preciso catar lenha no mato. Ainda hoje, nas regiões mais pobres do Brasil, a gente pode ver as mulheres levando feixes de lenha equilibrados miraculosamente em suas cabeças. Era preciso ter achas grossas de lenha, para o fogo que fica queimando, e gravetos pequenos, para o foguinho inicial de curta duração, necessário para se acender as achas grossas. A arte começava na forma de trançar paus grossos com os gravetos. Fósforos já havia. A gente risca os fósforos sem pensar. Paus de fósforo deveriam ser objeto de estudo, nas escolas. Já pensei mesmo em oferecer um curso sobre a história do pau de fósforo, história que começa quando um ancestral nosso pegou, pela primeira vez, um pau que um raio incendiara. Num pau de fósforo está resumida a luta dos homens, através dos milênios, para dominar o fogo. Objeto técnico incrível. É esfregar a cabeça dele numa superfície áspera e ele acende. Os paus já estão trançados no fogão. Não havia álcool para ajudar. Não havia jornais para queimar. Capim seco, sim. Tudo arranjado do jeito certo, encosta-se o fósforo aceso no capim. E o milagre acontece: o fogo. Quando o fogo é aceso anuncia-se a comida: o café, o biscoito, o bolo de fubá, o feijão, o frango ensopado. Ainda hoje eu fico comovido quando, viajando pelo interior, vejo a fumaça saindo da chaminé das casas dos pobres. Casa de rico não tem chaminé. Fogão de lenha aceso anuncia que existe vida naquela casa. Fogão de rico não faz fumaça. Por isso é que comida feita em fogão de lenha é mais gostosa.

Mas, e os pobres que não têm caixa de fósforo? Aí está um segredo: depois de acabado o fogo, as brasas podem ser guardadas, debaixo da cinza. É preciso que sejam cobertas de cinza. Caso contrário apagam. Você olha para o fogão, tudo apagado – e não sabe que é só mexer na cinza com um pau para que as brasas vermelhas apareçam. Aí, as brasas, colocadas debaixo dos gravetos e do capim – é só soprar. Não precisa fósforo: o sopro acende as brasas. E o milagre acontece. Brasas debaixo das cinzas: essa imagem é usada como metáfora (se você não sabe o que é metáfora pergunte ao pai, mãe, professora) para algo que acontece com a gente. Tivemos um grande amor que nos fez sofrer. O tempo passou. Agora tudo parece esquecido. Não está. Está como as brasas debaixo das cinzas: basta um sopro para que o fogo se acenda e a paixão volte... Fernando Pessoa tem um verso em que ele fala de um “anjo que com suas asas soprou as brasas de ignoto lar...“

Mas, e se as brasas se apagarem? O jeito é pedir fogo emprestado para uma vizinha. “
Meu sonho em forma de cozinha...

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