SONHOS E ENCANTOS

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segunda-feira, setembro 24, 2012

MEMÓRIAS DE UMA SENHORINHA / VOANDO PARA AS FÉRIAS






;Passa o tempo, implacável e frenético, passam as estações e nossa senhorinha, imersa em sua aventura particular de criar os filhos e encaminhar os filhos do coração, nem percebe a mudança das estações...

 E em sua charrete ela segue, sufocando a saudade que teima em beliscar o seu coração...sonha, ao balançar da marcha melancólica de seu "Paraiso", com os dias vindouros, o abraço familiar, o aconchego dos pais e dos irmãos...envolve, ao sacudir do trote do cavalinho, em organzas e cambraias, a ternura e o delicioso afago do ambiente familiar...vibra, a cada relinchar e o pôe a correr, pensamentos céleres a percorrer o seu ser, trilhando uma estrada que a levará ao destino desejado.

E, como dizia Quintana:

O Tempo
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando de vê, já é sexta-feira!
Quando se vê, já é natal...
Quando se vê, já terminou o ano...

E chegaram as férias...arrumações de malas, aflições, e o dia não chega, meu Deus, esperar com calma, não adianta ficar ansiosa, não vai fazer o tempo andar...e os pensamentos se sucediam com a rapidez de um trem bala.

Ela, sempre calma e tranquila, sentia como se um vulcão entrasse em erupção em sua mente.

E, enfim, o pai telefonava avisando que a iria buscar para o seu aniversário, 13 de dezembro.

Prazer muito além do sobreviver...de viver com. Alegria muito além do apenas sorriso...riso em flor, em cadência, em Allegro ou em Andante Cantabile.

Era o ano de 1973...

 

O que aconteceu em 1973?


O ano de 1973 no Brasil estava sob o governo Médice, no auge do regime militar. O mundo estava em expansão e permitiu o aumento de investimento via endividamento externo. A moda era a calça boca de sino. A musa, Darlene Glória. O ídolo esportivo, Emerson Fittipaldi. Na vitrola, rodavam os Secos & Molhados.
Foi o grande estouro do ano. Os Secos & Molhados eram liderados pelo inquieto Ney Matogrosso. Com letras descomplicadas e muitas músicas feitas a partir de poemas de autores brasileiros, seu primeiro disco chegou rapidamente ao topo das paradas de sucesso e vendeu mais de 800 mil cópias no ano. Com eles, a música popular retomava as últimas consequências a antropofagia musical tropicalista. O grupo formado por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad se tornaria um fenômeno em pouco mais de um ano de ida. Eles já irromperam na cena conquistando o público, rendendo a mídia e abocanhando o mercado fonográfico. Mais que um grupo, Secos & Molhados se tornou um conceito. O trio já nasceu cult e, ao mesmo tempo, super-popular. Várias faixas do disco viraram hits. Os mais poéticos embeveciam-se com “Rosa de Hiroshima”, poema de Vinícius de Moraes, os jovens se embalavam na força de “Sangue Latino”, e a garotada ia à loucura com “O Vira”.
As guitarras, a poesia, os arranjos modernos, a maquiagem, o vocal insólito e o rebolado de Ney provocaram um espanto sem precedentes. Lançado em agosto de 1973, o LP Secos & Molhados vendeu 300 mil cópias em três meses. Em um ano, chegou à marca das 800 mil, quase o dobro do campeão de vendas da época, Roberto Carlos, com a banda lotando estádios por todo o país. Em agosto de 1974, o grupo lançaria o segundo LP, simultaneamente ao anuncio da saída de Ney. A saída do vocalista foi seguida pelo violonista Gerson alegando a mesma razão, o controle dos direitos autorais e das finanças por João Ricardo, o principal compositor e que tentaria ressuscitar (sem sucesso) o grupo em 1977, 1980 e 1987. E o álbum de 1973 foi eleito um dos melhores discos da história do Brasil.
Outro emblemático disco de 1973, gravado em Londres, foi “Dark Side of the Moon”, do grupo psicodélico britânico Pink Floyd. O disco sombrio ficaria mais de 700 semanas na lista dos 200 de maior sucesso nos EUA, um recorde histórico. Escorado por músicas como “Money”, “Breathe”, “Time” e “The Great Gig in the Sky”, o álbum com a capa do prisma tornou-se um ícone da cultura pop. O conceito do disco, segundo o baixista, fundador e principal compositor do grupo, Roger Walter, gira em torno do individualismo e de como a sociedade tornou-se opressora. O disco permaneceu por 724 semanas na parada dos EUA, um recorde. Já foram vendidas mais de 30 milhões de cópias do álbum e relançado com materiais extras no 20º e 30º aniversários. Em março desde ano (2007) Walter apresentou-se na praça da Apoteose, Rio e no estádio do Morumbi, SP, tocando todas as canções de “Dark Side of the Moon”.
A importância do Pink Floyd surgiu a partir da utilização de recursos da música concreta (ruídos de portas que se abrem e fecham, de passos de pessoas, de água que escorre, etc) e eletrônico, fundidas com o estilo clássico, baladas inglesas tradicionais, blues e rock. Com ruídos inéditos, o Pink Floyd sugeria uma atmosfera de ficção científica, além de propor uma nova abertura, desde o aparecimento dos Beatles, no saturado universo da música pop. O conjunto é pioneiro no uso de laser, audiovisuais e suportes mecânicos em seus super-produzidos concertos ao vivo.
Ainda no mundo da música Raul Seixas lança seu grito de guerra no Lp “Krig-há, Bandolo” (na verdade, esse grito é dos macacos nos gibis de Tarzan que Seixas era fã), Tom Jobim com o seu “Matita Perê”, Milton Nascimento e o “Milagre dos Peixes”, o maldito Walter Franco e “Ou Não”, Paulinho da Viola com o excelente “Nervos de Aço”, Luiz Melodia e a sua “Pérola Negra”, “Tom Zé com “Todos os Olhos” e Gal Costa com “Índia”.
No cinema os destaques do ano são O Último Tango em Paris, de Bertolucci, Gritos e Sussurros, de Bergman, e Amarcord, de Fellini (1973). Os musicais pop, rescaldo da contracultura, fazem sucesso: Godspell, a Esperança, de David Greene e Jesus Cristo Superstar, de Norman Jewson. No Brasil chega às telas Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor. A adaptação da peça de Nélson Rodrigues causa escândalo nos cinemas. Tem ainda obras importantes como Uirá, o Índio em Busca de Deus, de Gustavo Dahl, Os Condenados, de Zelito Viana, Sagarana, o Duelo, de Paulo Thiago. O ano marca o auge da produção pornochanchada, gênero que tem uma fórmula baseada em humor, muito sexo e que consegue ampliar o público do cinema - em dez anos, o número de espectadores no país salta de 25 milhões para 60 milhões.
Várias foram as formas de resistência que os autores críticos usaram para se contrapor à política e ideologia do regime e para fazer chegar ao público suas mensagens, driblando a tesoura e o camburão. Entrelinhas, duplos sentidos, trocadilhos, mensagens cifradas: para bom entendedor, meia palavra tinha de bastar. Foram produzidas (e proibidas) várias obras críticas que versavam sobre os problemas sociais, o sufoco e a repressão daqueles tempos. Como exemplo, peça teatral como Um Grito Parado no Ar, de Gianfrancesco Guarnieri (1973).
Lima Duarte incorporou o cangaceiro Zeca Diabo e Paulo Gracindo viveu Odorico Paraguaçu na primeira novela em cores da TV brasileira: O Bem Amado. Nas noites de domingo uma voz anunciava “olhe bem, preste atenção!. Era o Fantástico, da Rede Globo, o programa revista de entretenimento com jornalismo.

Fonte: Blog do Gutemberg 




De presente de aniversário, um exemplar do sucesso do momento:O Último Tango em Paris. A irmã lhe deu de presente e ela vibrou!
Uma festa foi organizada para comemorar os seus trinta e   seis anos...festa em que foi apresentada aos amigos da irmã, frequentadores da Igreja da Glória, onde formavam um Grupo Jovem, idealistas engajados nos ideais de uma sociedade mais justa, com igualdade social e oportunidades para todos. O regime militar os assustava, mas não os calava.Faziam parte da Pastoral da Juventude.

    A  Pastoral da Juventude é a ação dos jovens como Igreja, unidos e organizados a partir dos Grupos de Jovens. É a juventude evangelizando outros jovens em comunhão com toda a Igreja.
A PJ não é apenas uma organização ou uma estrutura como alguns ainda pensam. Na verdade, os grupos de jovens são a base desta pastoral e é no grupo e pelo grupo que a PJ acontece.
Quando o grupo busca aprofundar e viver a fé, atuar na comunidade, descobrir como transformar a realidade e, junto com os demais grupos, ser evangelizador de outros jovens, já está sendo e fazendo Pastoral da Juventude.

E a nossa senhorinha passou a frequentar a Igreja e a comparecer às reuniões, repleta a cabeça de sonhos e de ideais revolucionários.




E com este mesmo grupo de amigos, o cinema Paissandu, com seus filmes de arte...Fellini, Buñuel, Godard eram os reverenciados na época, entre outros...as peças teatrais(merecedoras de um capítulo à parte), e a praia de todos os dias...


Amigos que me lêem, pacientemente,devo parar ou ficarão cansados. Voltarei na próxima semana.
                            Bjssssssss 

 




segunda-feira, setembro 17, 2012

Memórias de uma senhorinha/ Alçando novos vôos

E a aventura começou...o sogro a ensinou a comandar o cavalo na charrete, com a maior paciência e, após algumas aulas, a declarou apta a se aventurar até a cidade, naquele romântico meio de locomoção(para ela,tudo era romântico, pitoresco , telúrico...)





Nos primeiros dias, teve um pouco de medo, mas logo conseguiu a habilidade necessária, só perturbada quando o seu querido cavalinho resolvia empacar e, por nada deste mundo, saía do lugar...o único jeito era pedir a algum cavaleiro que os puxasse até a cidadezinha.


Sua primeira turma não era aquilo com que ela sempre sonhara...os alunos, do quarto ano primário, eram grandes e estavam repetindo...alguns pela terceira vez.
Muito agitados e rebeldes, não faziam silêncio para ouvir as explicações, respondiam mal quando ela os admoestava, saiam dos lugares, era um caos total! A senhora diretora da escola, a famosa Dna Matilde, era uma verdadeira lenda na cidade...alta, muito brava, fazia nossa amiguinha tremer quando assomava à porta da sala e dizia, alto e bom som, para todos escutarem:"Podem fazer muita bagunça mesmo, a professora de vocês é um doce, deve gostar de vê-los gritando!"
E ela sentia vontade de sumir dali, evaporar, desmaterializar-se...era uma sensação de impotência tamanha que a dominava, entre os alunos rebeldes e a diretora furiosa, que ela pensava seriamente em não mais voltar...mas isto seria se dar por vencida e nunca mais ter a coragem de voltar a trabalhar...não, ela não faria isto, de maneira alguma.Voltou aos seus livros de psicologia e de pedagogia, estudou métodos diversos e viu que teria que adotar um sistema oposto ao da diretora...a melhor abordagem para aquele tipo de alunos seria o carinho mesclado com a autoridade. Com jeitinho e com firmeza conseguiu aos poucos ganhar a confiança daqueles que eram considerados os vilões, as ovelhas negras daquela escola. 
Passou a fazer passeios com eles, levava-os até a fazenda, sentava-se no chão, ouvia as suas histórias de vida,subia os pastos cantando com eles (a Noviça Rebelde à todo vapor) e depois, já de volta para a escola, conseguia dar a sua aula tranquilamente. 
Mas não pensem que foi da noite para o dia que isto aconteceu...demandou tempo, o tempo da conquista, o tempo do "cativar" costuma ser demorado,mas quando acontece é vibrante, é vitorioso, é gratificante.

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Hoje quando vou a Miradouro eu os vejo...já são pais de família, profissionais liberais alguns, outros empresários e outros mais, fazendeiros.Homens e mulheres que conquistaram o seu espaço e que me tornam feliz e orgulhosa por ter contribuido à minha maneira, para esta vitória de cada um deles.

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E nossa senhorinha continuava a se dedicar aos filhos durante o restante do dia...cuidava da alimentação pessoalmente, não delegava à ninguém esta obrigação...antes de ir para a cidade alimentava os filhos e os colocava na cama para dormir.As crianças de antigamente, acordavam muito cedo e sempre dormiam depois do almoço...por este motivo ela podia ir tranquila para o trabalho.
E um ano se passou...as férias chegaram...desde novembro ela já estava às voltas com as costureiras preparando as roupas para ela e para os meninos. Como era de praxe, desde que os pais se mudaram, as férias eram passadas no Rio.As férias de dezembro, porque em julho os pais vinham passar com eles, na fazenda.
E as férias significavam muito para ela e para os filhos...reunir a família, comemorar o seu aniversário(em dezembro), o Natal e o Ano Novo. As crianças adoravam  a praia, o Aterro, o Parque Guinle, locais onde se podia ir à pé, já que os pais moravam no Catete. O pai sempre encarregava um amigo para buscá-los, o Jomar, ou então ele mesmo ia, no seu lindo Bel Air , seu sonho de consumo realizado. 


E era uma felicidade esta viagem!Os filhos e ela adoravam...mas esta alegria não era partilhada, nem pelo marido, nem pela sogra. Achavam um absurdo ir para o Rio de Janeiro, cidade perigosa e cheia de riscos. E era um Rio pacato o desta época, não havia violência e o pessoal do Morro Santo Amaro, amigo de todos os da vizinhança...a rua Bento Lisboa era vizinha do morro e o irmão ia  soltar pipa e subir em árvores com as crianças de lá...não havia perigo, havia pessoas humildes e respeitadoras, tanto quanto as pessoas humildes de qualquer outro lugar.

Gente Humilde

Chico Buarque

Tem certos dias
Em que eu penso em minha gente
E sinto assim
Todo o meu peito se apertar
Porque parece
Que acontece de repente
Como um desejo de eu viver
Sem me notar
Igual a tudo
Quando eu passo no subúrbio
Eu muito bem
Vindo de trem de algum lugar
E aí me dá
Como uma inveja dessa gente
Que vai em frente
Sem nem ter com quem contar
São casas simples
Com cadeiras na calçada
E na fachada
Escrito em cima que é um lar
Pela varanda
Flores tristes e baldias
Como a alegria
Que não tem onde encostar
E aí me dá uma tristeza
No meu peito
Feito um despeito
De eu não ter como lutar
E eu que não creio
Peço a Deus por minha gente
É gente humilde
Que vontade de chorar

E esta mesma gente humilde vivia no Morro de Santo Amaro daquela época ...crianças como as suas, inocentes e puras...uma inocência que um dia seria maculada e violentada...onde foi parar a inocência perdida?
Quem começou a destruição destes valores? Hoje eu me faço estas perguntas...

Perguntas que  não passavam pela cabeça de nossa senhorinha que não era vidente nem possuia uma bola de cristal....ela mesma, uma inocente e meiga senhorinha.


Estou indo, mas na semana que vem estarei de volta .

Bjsssssssssss 

segunda-feira, setembro 10, 2012

Memórias de uma senhorinha /Criando os dois filhos

Na época do lançamento do bonequinho Topo Gigio, das lambretas e da juventude transviada, ela, a nossa senhorinha, estava cuidando dos dois filhos...
Sua vida era completa e não imaginava um outro tipo de vida para si.Brincava com os filhos, contava-lhes histórias, cantava para dormirem e ao final do dia, exausta, adormecia.Sabia dos fatos que ocorriam no mundo através do noticiáros dos jornais que lia aos domingos. das revistas(O Cruzeiro, Alterosa, Vida Doméstica, Manchete e Cláudia) e de seu pequeno radinho de pilha. Seu mundo estava alí, naquele pequeno paraíso, onde reinava sobre os colonos e suas serviçais...era uma pequena alienada? Não sei dizer se esta sua realidade a deixava à margem dos acontecimentos ou não...sei que se julgava feliz e isto lhe bastava.



Primeiramente, para além de todo julgamento estético, Juventude Transviada é um marco na arte contemporânea. É a primeira vez na história das formas sensíveis de expressão em que existe uma fissura irremediável entre os filhos e seus pais, entre jovens e velhos, de forma que é completamente impossível a um compreender o outro. É possível fazer toda uma história dos desenvolvimentos culturais da segunda metade do século XX baseado apenas nessa fissura: foi ela que deu o rock’n’roll, os movimentos de Maio de 68 na França, a luta contra o Vietnã nos Estados Unidos, toda espécie de organizações de contracultura e, ainda com reflexos hoje, a liberalização dos costumes sexuais e de comportamento. Juventude Transviada, é certo, prefigura muito pouco disso: trata apenas da história de três adolescentes frágeis – mas que são fortes o suficiente para saber que não podem suportar o mundo em que vivem – que tentam, em conjunto, suprir as necessidades um do outro. Necessidades estas – inclusive a necessidade de paternidade – que não poderia ser suprida pelo cuidado ou pelo amor dos próprios pais. Juventude Transviada é o primeiro documento artístico de uma época que problematiza o fim do elo que ligava uma geração a outra, e talvez o primeiro objeto que mereça ser procurado quando tentamos entender o porquê de hoje o "mundo jovem" ter se transformado não só numa idade privilegiada no meio das outras, mas por ser hoje "a" idade propriamente dita, a idade que movimenta a economia através do consumo de música, de cinema, da indústria de fitness, etc.
No entanto, Juventude Transviada não é apenas um documento, mas também um filme que caminha estilisticamente com suas próprias pernas, realizado por um dos poetas mais intensos de sua geração: Nicholas Ray.
Nascido em 1911 mas só tendo começado a fazer cinema depois do término da Segunda Grande Guerra – seu primeiro filme data de 1948 –, Nicholas Ray se torna rápido um diretor com marcas distintivas fortes. É um mundo de heróis frágeis, palpáveis, que tentam sobreviver num mundo cuja chave de decifração eles não detêm. Nesse mundo, a onipresente violência física e mental convive com a possibilidade de uma paixão arrebatadora e irrestrita. Em Cinzas Que Queimam, de 1951, a estrutura básica de Juventude Transviada está montada: um policial citadino, nitidamente afetado pelo desencanto e pelo ambiente em que vive, passa a agredir violentamente os criminosos que persegue. Depois do enésimo caso de violência acima do aceitável, ele é conduzido a uma investigação no campo onde encontrará uma mulher por quem se apaixonará, mesmo que isso implique reconsiderar sua relação com a violência e seu poder auto-destrutivo. O talento e a fluência de Nicholas Ray para filmar essas cenas extremas, tanto os arroubos de violência quanto os delicados momentos da paixão nascente, não fascinou de primeira a crítica americana, mas encantou os então jovens críticos da revista Cahiers du Cinéma, que trataram de classificá-lo como o mais importante cineasta do pós-guerra (Éric Rohmer, em sua crítica de Juventude Transviada, Cahiers nº59). Godard acreditava ser Ray a expressão pura do cinema: "Depois de assistir a Johnny Guitar ou Juventude Transviada, impossível não dizer que trata-se de algo feito exclusivamente pelo cinema, algo que seria inútil no romance, no teatro, mas que na tela grande resulta em algo fantasticamente belo" (Cahiers nº68).
Em Juventude Transviada, Nicholas Ray encontra um ator perfeito para designar todos os estados de espírito com os quais mais gosta de trabalhar: James Dean é ao mesmo tempo um rosto de bebê abandonado pela vida e, inversamente, a possibilidade de uma explosão de violência quando menos se espera. A passagem da faixa etária de seus protagonistas de adultos para adolescentes também ajuda a problematizar melhor alguns problemas dramáticos que sempre estiveram no escopo de Ray. Mal ou bem, os protagonistas mais importantes de Nicholas Ray, de 1949 a 1955, são adultos abandonados, Sterling Hayden, Humphrey Bogart ou Robert Ryan. Juventude Transviada observa a origem desse abandono, o momento que separa seus heróis solitários e trágicos do resto dos "homens de bem", e o motivo: uma sensibilidade diferente, uma dificuldade em aceitar o ritmo e os jogos dessa sociedade, uma instabilidade quase química que impede a vida sedentária e assentada da idade adulta.
Outro aspecto decisivo no estilo de Nicholas Ray é a força suprema que os ambientes exercem nas cenas. Numa cinematografia como a americana, acostumada com um estilo de cenografia neutro e uma direção de arte naturalista (Wyler, Huston), Ray explode toda a verossimilhança dos lugares e das vestimentas servindo-se deles mais para conotar a situação dos personagens do que para mostrar semelhança com o mundo real. As locações são evocativas e não saem da cabeça fácil: a neve e a casa solitária em Cinzas Que Queimam, a casa de Joan Crawford em Johnny Guitar, a mansão para onde os três heróis de Juventude Transviada fogem. Em Johnny Guitar e Juventude Transviada, ainda se acrescenta outra camada expressiva: a cor. Cineasta famoso por trabalhar com baixos orçamentos, Nicholas Ray pôde em seu melhor período filmar poucos filmes em cor. E seu uso é primoroso: cores aberrantes que rimam com os estados de espírito de seus personagens, seja as tonalidades da face de Joan Crawford (ainda e sempre Johnny Guitar) ou a jaqueta vermelha de James Dean nesse Juventude Transviada. Nicholas Ray nunca primou pelos meios termos em seus filmes. Sorte nossa: sentimos a emoção por inteiro.
Ruy Gardnier

(sobre o mal existir em cada um)
"Acredito que isso vem do sentimento segundo o qual nenhum ser humano, homem ou mulher, é sempre bom ou mal. O essencial em toda representação da vida é que o espectador, quando assiste, tenha o sentimento de que, nas mesmas circunstâncias, faria a mesma coisa que o personagem faz se estivesse na pele dele, sejam esses atos bons ou maus. As fraquezas do personagem devem ser humanas, pois se elas o são, os espectadores podem reconhecer nelas suas próprias fraquezas"

( sobre a violência de seus personagens)
"Existe violência em todos os meus personagens. Em todos nós, ela existe em potência. (...) É por isso que eu prefiro os não-conformistas: o não-conformista é muito mais sadio do que aquele que por toda sua vida regula seu cotidiano, pois é aquele mais apto, no momento menos previsível, a explodir e matar o primeiro que aparecer"

(Nicholas Ray, entrevista concedida a Charles Bitsch, Cahiers du Cinéma 89, novembro de 1958.
Sinopse: Como seu filho Jimmy acaba arranjando confusão em todos os colégios em que é matriculado, os Stark vivem mudando de cidade em cidade para livrar o filho das más influências. Mas, recém-chegado à nova cidade, Jimmy já é levado para a delegacia por bebedeira e vadiagem. Lá ele conhece Judy, uma adolescente que não consegue mais conviver pacificamente com seu pai. A empatia entre os dois jovens é mútua. No dia seguinte, na escola, Jimmy desperta ciúmes em Buzz, namorado de Judy, e é chamado para resolver a rivalidade num racha de carros que acaba tendo um desenlace fatal. Assustados, Jimmy e Judy escondem-se com o menino Plato numa mansão abandonada, onde tentarão conviver como uma família, na ausência de outra.

Direção: Nicholas Ray Roteiro: Stewart Stern, Irving Shulman, com argumento de Nicholas Ray Fotografia: Ernest Haller Montagem: William Ziegler Música: Leonard Rosenman Produção: David Weisbart Elenco: James Dean (Jimmy Stark), Natalie Wood (Judy), Sal Mineo (Plato), Jim Backus (pai de Jim), Ann Doran (mãe de Jim), William Hopper (pai de Judy), Rochelle Hudson (mãe de Judy), Corey Allen (Buzz), Dennis Hopper (Goon), Nick Adams (Moose).

Fonte:contracampo.com.br
 Ver este filme a fez enxergar uma nova realidade:nem tudo era cor de rosa no mundo...suas heroínas dos livros de M.Delly eram completamente diferentes das heroínas da vida real.Havia um novo tempo começando a surgir e nele a sua Noviça Rebelde era uma rebelde sem causa...

Nos anos 50 foi lançado o primeiro carro da Volkswagen, com peças inteiramente produzidas no Brasil.E, enquanto nossa amiguinha cuidava da educação dos filhos, a irmã mais nova aprendia a dirigir,tirava a Carteira de habilitação e comprava o seu primeiro carro,um "fusquinha" azul. Tudo é uma questão de escolhas, de prioridades, mas não posso negar a frustração, a quase inveja mesmo de uma pessoa que sempre fora a mais "atirada",ao ver a irmãzinha sempre tímida e acanhada, a dirigir o seu próprio carro.




E, nas férias de dezembro o grande sonho de sua irmã se realizando: a formatura na Faculdade Santa Úrsula em Letras Anglo Germânicas.Foi uma enorme alegria para toda a família!

E foi nesta ocasião que a nossa senhorinha resolveu dar um novo passo em sua vida:fazer o concurso para o Estado...seria professora de fato e não apenas no Diploma pendurado na parede.Uma dificuldade em família tão abastada!Um problema de difícil solução.Só contava com o sogro a apoiá-la, ele que acreditava no trabalho como fonte de realização para todas as pessoas,independentemente do sexo...mas todos, sem exceção, argumentavam a favor do marido que achava o cúmulo do absurdo uma pessoa de sua "estirpe" se lançar ao trabalho...e à estrada também pois os Grupos Escolares funcionavam na cidade.Mas depois de uma batalha verbal de vários dias, finalmente chegou o tão esperado dia do concurso e lá foi ela até a cidade de Leopoldina, onde o mesmo seria realizado.Não entrarei em detalhes sobre isto, apenas direi que após alguns dias o resultado chegou, a escola era o Grupo Escolar Desembargador Alberto Luz e chegou,finalmente o tão esperado dia:a sua posse no cargo de professora.
O sogro lhe deu de presente uma charrete e um cavalo, o Paraíso...ironia do destino...era um lindo cavalo branco que empacava e não correspondia em nada ao nome.
E esta era a praça por onde passaria todos os dias para chegar à Escola.



Bem amigos, eu estou indo... voltarei na próxima semana, se Deus quiser.Bjsssssssss

domingo, setembro 02, 2012

Memórias de uma senhorinha / DESPEDIDAS








E mais uma despedida se anuncia na vida de nossa  senhorinha...outra plataforma,outra estação...mais uma tristeza para o seu coração, fragilizado por seu estado e já desacostumado da palavra adeus.
Seu pai foi transferido para o Rio de Janeiro,sonho antigo e acalentado por sua mãe,mas neste sonho ela não figurava, teria que ficar em sua casa, com o marido, o filho e já preparando o novo enxovalzinho do bebê que estava para nascer...
Como descrever o seu estado de espírito, ao receber a notícia?Decepção,angústia,frustração,desilusão e ,ao mesmo tempo a alegria por saber que os pais estariam realizando um sonho...sentimentos contraditórios a invadiam e não sabia se deveria rir ou chorar...a criança, que habitava o seu interior, chorava, mas a senhorinha, adulta e compenetrada, demonstrava uma esfuziante alegria e planejava, com eles, os detalhes da mudança.
Coração partido não aparece, não sangra, nem se manifesta...e o dela estava partido em mil pedaços,não haveria cola capaz de emendá-lo...só mesmo o tempo poderia amenizar aquela dor.

Não mais a Rua São Pedro, não mais as brincadeiras com o pai, não mais seu quarto hippie com seus "livros, seus discos e nada mais."

O acender das luzes da realidade lhe fora duro, o sonhar era proibido, o "laissez faire,laissez passer, le monde va de lui même"(dito preferido de seu pai),também.Por entre os cílios guardava segredos e estendia nas janelas rendadas da alma as ilusões infantis.

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E o tempo, implacável senhor, seguiu a sua trajetória e ela"com seu vestido cada dia mais curto",viu chegar o dia da partida de sua família...se sentia orfã,ao lhes dar o adeus sofrido e machucado, mas segurou a dor dentro do peito e os viu partir, abraçada ao filho, naquela noite fria e triste...o trem apitou e selou a sua sentença.

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Nova vida e novo contexto ...afinal, um filho é uma planta,há que se esperar brotar...
No outro parto,ela, que havia sofrido as dores com total despreparo e imenso desatino ,havia prometido a si mesma que, de outra feita, não sentiria nenhuma dor.Na revista Cláudia, havia lido sobre um miraculoso método de parto sem dor e, desde então, só pensava em encontrar o livro que abriria para ela as portas deste método.Pediu ao cunhado, que morava no Rio e estudava Direito, que ,em suas incursões por livrarias, procurasse o milagroso livro.Para sua grande alegria, ele o encontrou e trouxe para ela...foi uma alegria enorme!O livro se chamava " Parto sem Dor"e seu autor , o Dr.Pierre Velay, afirmava, com todas as letras, que era possível se abolir totalmente a dor do parto, praticando os exercícios que ele, passo a passo, ensinava.
Fazia daquela prática a sua religião, a sua esperança, a sua tábua de salvação...sua carência, sua saudade, sua infinita tristeza, se transformavam em energia canalizada para um só objetivo:ter o seu filho sem sentir dor.Todos que a viam tão centrada nesta prática de relaxamento, controle da respiração, caminhadas e vários exercícios,achavam que era uma infantilidade, um sonho impossível... 
Seu médico ainda era o querido Dr Evaristo, com sua cabeleira branca e sua fisionomia paternal...a enfermeira era a mesma do primeiro filho e riam, ambos, daquela sua obstinação em fazer aquelas paradas para a respiração, não acreditavam nem um pouco naquele método.Mas tudo correu bem e nossa amiguinha não sentiu mesmo a menor dor...seu filho nasceu e ela o recebeu com um sorriso nos lábios.Seu nome, Carlos Augusto e era um bebê forte e grande, calmo e tranquilo, nascido de um parto sem dor.

Os pais chegaram para conhecer o neto e se maravilharam ao ver como a sua menina estava bem disposta, alegre e sorridente. 


Eu estou indo, mas voltarei na próxima semana...aguardem.

Memórias  de uma senhorinha “ Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias.” Fer...

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