SONHOS E ENCANTOS

SONHOS E ENCANTOS

sábado, junho 23, 2012

Sonho de Cinderela/Minhas Memórias de Menina



E nossa menina está prestes a iniciar um novo ciclo em sua vida,mas antes disto ainda vai preparar o seu último Natal de solteira...inqueta-se com os preparativos,perde-se em pensamentos,e,ao mesmo tempo,cuida para que tudo saia a contento:o presépio,decorado com esmero...papel amassado e coberto com purpurina,imitando pedras;manjedoura coberta com palha,espelho imitando um lago(não sei o porquê deste lago perto do presépio)um burrinho e uma vaquinha e as imagens de N.Sra e São José ladeando o Menino Jesus...todos os anos era ela a encarregada deste ritual e o cumpria com alegria...este ano,como seria o último,dedicava-se mais,mas havia uma certa melancolia que teimava em aparecer,perturbando-a.
 Cuidou para que tudo ficasse impecável e que sua tristeza(porque,meu Deus!)não interferisse em sua "criação".
E o Natal chegou!Seu presépio ficou lindo,todos elogiaram e ela esqueceu aqueles momentos de inquietação...
Foram à Missa do Galo,trocaram presentes e a alegria do irmão,que ainda acreditava em Papai Noel,a todos contagiou...mas,nos olhos do pai ela sentia uma nuvem a pairar...eram muito ligados os dois,apesar de não terem o hábito de falar de seu amor...mas este se manifestava em todos os gestos e atitudes,no modo com que ele segurava sua mão,ao passearem pela rua,no seu abraço protetor ao sairem,no seu modo carinhoso de colocar a lingua na ponta do nariz(ninguém consegue isto,viu?)no jeito de estufar a bochecha pedindo-lhe beijo...estes eram os sinais e os ritos de um grande e terno amor.

Após o Natal e o Ano Novo (não tinham o hábito de festejá-lo),uma nova empreitada a esperava,os útimos preparativos para o casamento que seria em Maio,o mês das noivas,romanticamente escolhido por ser o mês de Nossa Senhora,o mês das coroações,dos monsenhores em flor e das rosas em profusão...a igreja estaria engalanada e ela queria muitas rosas brancas em todos os bancos.

Começou a correria,às costureiras,bordadeiras,sapateiros e sapatarias...belos lençóis de linho sendo bordados,vestidos para todas as ocasiões,sapatos forrados pelos sapateiros e outros escolhidos a dedo nas sapatarias para combinar com os trajes.Ah,e bolsas combinando com os sapatos...
E anáguas de algodão,com barras de organdi,anáguas que seriam engomadas para serem usadas com as saias godés,franzidas ou plissadas.
Muitas vezes, se fazia necessário usar não uma, mas várias anáguas para obter o efeito desejado. Abaixo, o autêntico vestido dos anos 50 e as três anáguas que, usadas juntas, dão o efeito desejado:

                                                       E para se usar um vestido rodado,fazia-se necessário o uso de várias anáguas,por vezes feita de um tecido mais armado,quase um entretela...

 E ainda havia as combinações,camisolas longas e bordadas,robes,pijamas de seda e de cambraia,corpetes e mil outras pecinhas que compunham um enxoval de uma menina dos  Anos Dourados.

E o mais importante,o vestido de noiva,que ela queria clássico,sem frufrus,nem pérolas ou rendas...com seu rostinho de menina ficaria bem melhor em um vestido à la Audrey Hepburn,mas não,ela queria parecer mais velha e escolheu um vestido de cetim,bem colado ao corpo até a cintura e com uma saia ampla,sendo preciso toneladas de anáguas para preenchê-la.

E chegou o grande dia!Igreja adornada,pajens lindos em suas roupinhas de adultos...o irmão e uma sobrinha do futuro marido...e convidados à postos esperando a sua entrada,a menina (Cinderela?) e o seu príncipe,cobiçado pelas vizinhas e amigas???,por ser um "bom partido",pertencente a uma das mais tradicionais famílias da cidade.
 
 Sua alegria transparecia no sorriso e no olhar...seus sonhos de ter uma família,sua perspectiva de uma união"até que a morte os separe",estava se concretizando...o futuro estava se abrindo para ela que chegava,pisando devagarinho para não assustar a dona Felicidade.E o desejo maior de ter muitos filhos,uma casa repleta dos ruídos de vozes infantis,uma mesa alegre,onde a conversa seria uma fonte de perguntas e informações,e onde nada se escondia,a sinceridade seria a tônica de seu relacionamento com os filhos.


E assim transcorreu a cerimônia,com estes pensamentos a povoarem a sua romântica cabecinha.
Após o casamento a festa em sua casa e ela,atordoada,nem provou os salgados e docinhos...a vó,zelosa,fez um pratinho para ela levar na viagem
.Carro à porta,ela se trocou,beijou os pais e irmãos e partiu,rumo ao desconhecido...


Eu vou,mas voltarei...aguardem!




quinta-feira, junho 14, 2012

O BAILE DA FORMATURA



  



  
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E chegou o dia do baile,tão esperado por todas:E alimentavam um sonho,Dolores Duran em pessoa,cantando no palco do Muriaé Tênis Clube...mas este era um sonho       impossível...
     Teriam que se contentar com a orquestra do Clube, excelente,diga-se de passagem, e que executaria as músicas de Dolores, Linda Batista, Nora Ney e dos cantores da época:Nélson Gonçalves,Carlos Galhardo,Francisco Alves e os mais novos Vinicius,Tom,João Gilberto,já começando a Bossa Nova a surgir no cenário musical brasileiro.       
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A década de 50 foi marcada por grandes transformações na cultura musical brasileira : influência do pós-guerra, início da televisão com forte presença dos meios de comunicação, aumento da participação de intelectuais junto às bases populares da música brasileira, melhoria econômica da população e apelo nacionalista iniciado pelo governo de Getúlio Vargas.
As elites intelectuais brasileiras, principalmente no Rio de Janeiro, começaram a participar mais ativamente dos movimentos de música popular brasileira, onde até os anos 40 predominavam compositores de muita sensibilidade porém com pouca bagagem intelectual.
 Dessa maneira as músicas brasileiras passaram a ter mais atenção por parte da comunidade musical que as estrangeiras como boleros e tangos.
Nesse contexto nasceu a Bossa Nova, durante final da década de 50.
 Os principais artistas e compositores iniciadores da bossa nova foram :  Antonio Carlos Jobim, Vinicius de Moraes, João Gilberto, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Ronaldo Bôscoli, Baden Powell, Luizinho Eça, os irmãos Castro Neves, Newtom Mendonça, Chico Feitosa, Durval Ferreira, Nara Leão, Sylvia Telles, Luis Carlos Vinhas, Johnny Alf e muitos outros. 
 Impossível precisar o início da Bossa Nova, mas admite-se que o lançamento em 1958 do LP Canção do Amor Demais com Elizeth Cardoso interpretando Chega de Saudades de Tom e Vinicius, entre outras, tenha sido o marco inicial da Bossa Nova; nesse LP João Gilberto surpreendeu a todos com sua nova batida de violão; foram experiências musicais de vários artistas, principalmente da turma que frequentava a casa de Nara Leão; admite-se a influência do jazz na batida da Bossa Nova.
Sucederam-se "Samba de uma nota só" de Tom e Newton Mendonça, "Desafinado", "Garota de Ipanema", "Só danço samba" estas últimas de Tom e Vinícius e muitas outras, marcando definitivamente a Bossa Nova como o grande movimento da moderna Música Popular Brasileira.
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E também havia os ídolos da música internacional,estava surgindo o rock....Com Elvis Presley,a mania das adolescentes dos anos cinquenta.

 
          Elvis Presley,e tantos outros  povoavam o universo daquelas meninas...lembranças do tempo em que iam ouvir música na casa do amigo(único e feliz possuidor de uma eletrola)         .


Asnavour
ELLA FITZGERALD



O cinema, o rádio,eram as maiores paixões de quem respirava romantismo naqueles Anos Dourados.

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O clube,todo iluminado as conduzia aos filmes de Hollywood e eram as protagonistas da mais bela história de sonhos,ilusões e brilho.Deslizavam pelo salão como princesas de um conto de fadas...e eram realmente as princesas por uma noite,qual Cinderela em sua mágica fantasia... 

Os rapazes,garbosos em seus ternos eram os príncipes que lhes povoavam o imaginário e as levavam a rodopiar pelo salão vertiginosamente...
Pares trocavam juras de amor eterno,mergulhando em seguida na loucura de um rock agitadíssimo...


E nossa menina,já quase comprometida,só dançava com o pretendente,par fixo e irremediávelmente único.Sério,compenetrado(e ciumento)vigiava-lhe os olhares,não admitindo sequer uma brincadeira com as amigas.Seria um sinal,um aviso de que algo não correria muito bem?Não,ela não pensava nisto,estava encantada com o futuro e vivia este presente como se fora uma dádiva e ela uma predestinada a  um belíssimo happy end...


   E o baile chegou ao fim...as amigas se separaram e um novo ciclo estaria por vir...


      Adeus aos sonhos da juventude,às brincadeiras ainda infantis,às melhores amigas e à feliz e descompromissada vidinha.

Estou encerrando um ciclo...mas na próxima semana voltarei...




   
                                                                                         

quarta-feira, junho 13, 2012

Homenagem ao Poeta


124 anos!

Interrompendo as Memórias de Menina para uma homenagem ao Poeta Fernando Pessoa...
Fernando Pessoa
13 de junho de 1888 / 13 de junho de 2012
Aniversário
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como uma religião qualquer.
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar pela vida, perdera o sentido da vida.
Sim, o que fui de suposto a mim mesmo,
O que fui de coração e parentesco,
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui – ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui…
A que distância!…
(Nem o acho…)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!
O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes…
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio…
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim…
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui…
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas – doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado –,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos…
Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!…
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!…
{Álvaro de Campos, Poemas}

segunda-feira, junho 04, 2012

Minhas Memórias de Menina

 Último ano no Colégio

Aproxima-se a formatura e todas as alunas estão mergulhadas nos preparativos:convites,festa,baile,roupas e as temidas Provas Finais!!!Orais e escritas,eram o "bicho papão"de todas as meninas, que tremiam ao pensar nas mesmas.Teriam que se submeter à uma banca examinadora severíssima,formada por freiras e professores de outras instituições de ensino da cidade.Havia também os Fiscais que avaliariam a todas.
Nossa menina moça estava bem preparada,era estudiosa(não em exagero)e sentia que possuia "base"para passar...mas mesmo assim não deixava de se preocupar com algo por todos comentado como um verdadeiro filtro,onde só passavam as melhores.
E chegou o tão temido dia e todas se posicionaram na sala 
de aula à espera da chamada.O exame era feito em sala separada e, uma a uma, eram chamadas.Ela seria a nona,já que era por ordem alfabética.
Sua dissertação : "Um Olhar Sobre o Ensino das Primeiras Letras",tremia em suas mãos.
Haveria também o sorteio de um "ponto"a ser arguido por um dos examinadores.E deveria falar o que soubesse acerca de determinado assunto para depois ser bombardeada pelas perguntas de todos.Sentia-se na Inquisição,tal o estado de pavor visto na fisionomia de todas ao sairem da malfadada sala.

      Quando,enfim,foi chamada sentiu uma calma tão grande...parecia que nem era ela a responder...as palavras brotavam-lhe com facilidade e soube responder a todas as questões formuladas.O ''Ponto''sorteado era o mais sabido por ela.E à cada pergunta respondia com segurança e tranquilidade...terminou e soube o resultado depois do recreio.
        Havia passado!!!E com a nota máxima!!!A alegria foi enorme e imediatamente correu para casa,a mãe já deveria estar aflita,precisava tranquilizá-la.E em casa outra alegria:o pai já havia comprado o seu anel e só estava aguardando a sua chegada para mostrá-lo.(O anel era o sonho dourado daquelas meninas da década de cinquenta.Não havia as facilidades de hoje e ter um anel era uma glória)

MURIAÉ TÊNIS CLUBE
         Agora,eram outras as preocupações:os preparativos para a festa.Idas à costureira,à gráfica(para imprimir os convites),ao clube(para combinar os detalhes do baile),às lojas,às reuniões com as colegas e tudo mais que fosse necessário para que tudo corresse às mil maravilhas. 
        Os convites ficaram lindos,a gráfica caprichou,o clube faria um lindo baile,os tecidos já na costureira e agora era só aguardar o Dia D de suas vidas.

Era de grande importância a formatura no Curso Normal,naquela época.Dificilmente fariam uma faculdade,pois na cidade ainda não as havia.Os pais,em sua grande maioria,não permitiam que as filhas fossem estudar fora.Havia algumas exceções,como no caso de Lucina Passos,que foi para Belo Horizonte cursar a Faculdade de Letras e depois de formada lecionou em BH e no Rio de Janeiro,tornando-se mais tarde escritora de literatura infantil de grande renome.Mas este não era o caso de nossa menina,já predisposta a se casar tão logo se formasse.

Mas esta já é uma nova história...eu vou,mas semana que vem voltarei.
Bjs

      As palavras do poeta martelavam em sua cabeça... sabia do cair e do levantar também... tantas vezes experimentara o caminho resva...

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