SONHOS E ENCANTOS

SONHOS E ENCANTOS

quinta-feira, novembro 28, 2019



Memórias de uma senhorinha


Ousadia



Apesar de todos os medos, escolho a ousadia.
Apesar dos ferros, construo a dura liberdade.
Prefiro a loucura à realidade,
E um par de asas tortas
Aos limites da comprovação e da segurança.
Sou assim.
Pelo menos assim quero fazer:
A que explode o ponto e arqueia a linha,
A  que traça o contorno que ela mesma há de romper.
A máscara do Arlequim não serve
apenas para o proteger quando espreita a vida,
mas concede-lhe o espaço de a reinventar.
Desculpem, mas preciso lhes dizer:
EU quero o delírio.

Lya Luft





E a nossa senhorinha também queria  o delírio e a beleza, a claridade da inocência, os azuis extremos e os poentes rubros. O concavo e o convexo, o brilho luminescente das estrelas e as auroras carregadas de orvalho. E olhava o rio profundamente azul , o céu sem nuvens e a vegetação em todos os tons de verde de sua paleta de tintas e as garças que sobrevoavam as águas, agradecendo a Deus pelo dom da vida e pela oportunidade de presenciar tanta beleza.


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Uberaba, uma bela cidade do  Triângulo Mineiro, banhada  pelo Rio Grande, que fez nossa Senhorinha vibrar com a sua beleza...águas cristalinas  e ,para ela, acostumada com os rios estreitos e escuros das cidades onde vivera, um deslumbramento, um  poema de Manoel de Barros, um mar com o nome de rio.
Mas, deveria continuar a viagem e sua última parada seria Iturama. E a nossa senhorinha era como o passarinho do poema de seu poeta predileto: amava o voo e gostava de ser "passageira"...ou seria uma andorinha?

Passarinho mais andarilho que conheço é andorinha mesmo. Elas mudam de lugar nas estações do ano. Depois vêm voltando. 

Manoel de Barros






Deixou de observar o rio e dirigiu-se à Estação Rodoviária...do silêncio para o burburinho...pessoas de um lado para outro, fisionomias cansadas de longas viagens, chegadas e partidas...
...e seria novamente uma longa viagem.
Após um pequeno lanche entrou no ônibus e tomou o seu lugar.O ônibus, com seu balanço, a fez dormir...e mais uma cidade, outra Rodoviária.

  A nossa Senhorinha ficou maravilhada com a cidade :Frutal, simpática cidadezinha ,parada do ônibus para um cafezinho. 
E encantou-se com a beleza da Matriz de Nossa Senhora do Carmo, com o magnífico por do sol como pano de fundo.





Frutal 



Outras cidades surgiriam ainda , não as mencionarei para não me alongar.E, também porque a nossa amiguinha, contemplava o rio e imaginava a Baronesa Alice a fazer o mesmo, do fundo de seu quintal. Uma rede ,tendo como apoio duas frondosas árvores ,era o seu refúgio nas tardes quentes...um toque de requinte , lampiões  a gás em postes de madeira torneada cercavam a alameda que conduzia ao rio...uma visão privilegiada estava diante de seus olhos.
A paisagem é magnífica. O recorte azulado e sombrio da serra contrasta com o verde dos campos e as cores outonais das vinhas e searas.Avistava a velha ponte romântica e, do lado direito, um moinho de pedra, tal qual uma sentinela das águas calmas e tranquilas.
Uma novidade a aguardava ao chegar em casa...uma carta do seu amado, doce missiva a anunciar a sua chegada dentro de quinze dias. A alegria tomou conta de seu coração e a sua primeira atitude foi ir até a Igreja para agradecer  a Deus a benção alcançada. 

Igreja de Estorão    ( Fonte Wikipedia)

E, mais tarde, providenciaria um sarau para a recepção ao seu amado. Doces finos, salgados elaborados e vinhos nobres comporiam a mesa para receber os convidados.
Baile da Ilha Fiscal

Guardadas as devidas proporções, seria uma festa que ficaria na memória de todos como a mais próxima ao grande baile da Ilha Fiscal ao qual comparecera com o amado.
As músicas  foram escolhidas a dedo, de modo a agradar a "gregos e troianos"...só não poderia deixar de lado a sua musa inspiradora, Chiquinha Gonzaga, ousada e corajosa, vibrante e batalhadora, perfil parecido com o seu e dona de um repertório inconfundível. 
Sua vida foi marcada pelo sucesso na música, o desafio à sociedade patriarcal do período regencial e à luta abolicionista.
A participação de Chiquinha Gonzaga no cenário artístico brasileiro foi fundamental para a definição da identidade musical do País no início do século XX.
Entre as obras mais conhecidas de Chiquinha Gonzaga está a marcha carnavalesca "Ó Abre Alas".

Chiquinha Gonzaga
Vamos , porém, deixar a Baronesa Alice  às voltas com os seus preparativos para a festa...farei uma pausa, mas, aguardem. Eu voltarei. Com certeza.
Leninha Brandão



sexta-feira, novembro 22, 2019

Memórias de uma senhorinha

E ,em uma chuvosa manhã de março ,nossa Senhorinha foi chamada à Delegacia de Ensino de São João Del Rey , à qual pertencia a escola de Dores de Campos...apreensiva e preocupada , muniu-se de sua pasta e para lá se dirigiu, naquele velho ônibus e naquela esburacada estrada. 

Sentou-se na sala de espera daquela repartição e ficou, apreensiva a esperar. Não demorou muito e foi chamada à sala da Delegada de Ensino, uma senhora discreta e solene, de voz suave e pausada. E foi com esta voz doce que lhe comunicou que as Classes Especiais acabavam de ser extintas e que a nova diretriz seria colocar as crianças em classes normais para uma melhor adaptação. E  que os seus alunos , em especial, não necessitavam de uma sala exclusiva já que estavam se desenvolvendo muito bem , conforme informações da Inspetora Escolar. Nossa Senhorinha argumentou que os alunos estavam bem graças aos seus métodos pedagógicos e à sua dedicação extrema. E esta dor que ela estava sentindo explodiu em forma de abundantes  lágrimas, amargas lágrimas de tristeza e de revolta.
Infelizmente, nem suas palavras e nem suas lágrimas foram suficientes para mudar o imutável. Era uma decisão superior, amparada por uma lei e nada do que ela dissesse, nenhum argumento poderia modificar o irreversível.  O que poderia fazer além de aceitar e abandonar todos os seus sonhos e tudo aquilo que havia planejado para a sua vida. Mergulhada em uma tristeza sem tamanho, voltou para a sua casa e empacotou todo o seu material de trabalho, empacotando junto a história de treze crianças , vítimas de um sistema injusto e cruel , autoritário e sem noção do mal que lhes seria causado...
Foram dias de muita amargura e a nossa Senhorinha tomou o único caminho que lhe parecia razoável...entrou em licença sem vencimentos e foi ao encontro de sua querida Drinha no Triângulo Mineiro, mais precisamente em Iturama. Uma viagem longa, com bastante tempo para pensar e se refugiar na história da Baronesa...

"por vezes sentimos que aquilo que fazemos
não é senão um gota de água no mar
mas o mar seria menor se lhe faltasse uma gota"
Madre Teresa de  Calcutá




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E a Baronesa estava , de igual modo, triste e amargurada...sim, vieram tempestades,dilúvios de lagrimas de tristeza e desesperança...sentia-se desvivendo e sua alma de menina sonhadora se oprimia enquanto relembrava o sonho que fora, o encantamento que lhe trouxera aquele amor...

..
... havia enviado uma missiva para o amado, colocara todo o seu amor em cada palavra e , ainda não recebera resposta.

 A costureira trabalhava diariamente na confecção do enxovalzinho e de novos trajes para a  Baronesa. Belíssimas peças surgiam de suas habilidosas mãos, dignas de uma aristocrata...batas bordadas em fino linho,  saias longas e drapeadas , vestidos em seda e renda. Toalhas  em crivo já enfeitavam a casa, rosas em belas jarras se viam sobre os móveis. E ela, Alice ( era o nome da baronesa, lembram-se?), andava pela casa e se imaginava feliz com o seu amado e com sua filhinha de cachinhos dourados. E os dias corriam nesta espera e a saudade era a sua companhia diária. E ela andava em compasso de espera, sem poder adiantar o tempo, sem poder modificar o relógio. E olhava para dentro de si e para a menina que um dia havia sido...dos sonhos sonhados, aquele de encontrar um príncipe como nas histórias que a encantavam, era o mais desejado. Seria querer demasiado?




Fazer da interrupção um caminho novo. 
Fazer da queda um passo de dança, 
Do medo uma escada, do sono uma ponte, 
Da procura um encontro.


Fernando Sabino
   
                         E enquanto a nossa senhorinha imaginava, o ônibus chegou ao seu primeiro destino, Uberaba. Dali seguiria para mais sete longas horas de viagem...mas eu devo deixá-los e retornarei em um outro dia...com certeza! 
Boa noite!!!


Leninha Brandão








segunda-feira, novembro 18, 2019


Memórias de 
UMA SENHORINHA
Nossa senhorinha , de volta á casa, após as cansativas negociações em Belo Horizonte, se refugia em seus sonhos e passa a imaginar a continuação da história da baronesa, lago tranquilo e transparente no qual se viam flores e nenúfares, encanto e poesia...
E pensava que necessário se fazia deixar de lado aquilo que se julgava prioridade e que para os outros não passava de " caprichos de moça da cidade grande"...e a vida tem esta arte, a magia de nos libertar daquilo que nos apaga o sorriso...e este sorriso fazia parte da vida de nossa " menina dos cachos" desde a infância, lá na longínqua Manhumirim.
Calçou então as suas botinas e deixou que o pensamento viajasse para o mundo da imaginação onde nada era proibido e não havia barreiras para os seus sonhos.


Uma casa para a baronesa



Após a longa viagem, cansativa e demorada, encontraremos a nossa baronesa  já instalada em sua casa, herança dos avós portugueses. Não tinha a riqueza da casa paterna, porém correspondia perfeitamente às suas necessidades atuais. E ela já sonhava com a criança correndo pelo jardim, cachinhos ao vento e a sua vozinha a chamá-la, meiga e doce criaturinha que traria luz e sol à sua existência. 
Contratou uma costureira e empenhou-se na confecção do enxovalzinho elaborado com peças de finos tecidos, rendinhas e cambraias , linhas e agulhas.                                

 E , aos poucos, foi-se desenhando o ambiente em que viveria aquela criança já tão amada e desejada, fruto de um amor  intenso e destinado à eternidade.



 Uma carta, relatando toda a magia do local, foi enviada para o seu amado que já deveria estar ansioso por notícias,principalmente após ter recebido a missiva anterior em que punha um ponto final ao 
relacionamento, deixando-o sem esperanças , totalmente sem esperanças.E esperança era o que habitava o coração e a mente da baronesa, inteiramente devotada àquele amor e aos preparativos que tornariam a casa um ambiente propício à uma vida tranquila e feliz.A decoração, rústica e aconchegante, retratava o espírito da aldeia...as paredes de pedra, a lareira, os tapetes de tear manual traziam o calor necessário à sala de estar. Do teto alto pendia um belo lustre iluminando o ambiente. Confortáveis poltronas ofereciam o conforto e a total harmonia com o ambiente.







Canção do Amor

Tu és a corça e eu o cervo,
pássaro tu e eu a árvore,
o sol tu e eu a neve,
 tu és o dia e eu o sonho.
De minha boca adormecida
à noite um pássaro de ouro voa a ti:
tem a voz clara, multicolores asas,
e vai cantar-te a canção do amor
 - e vai cantar-te a canção de mim.

Hermann  Hesse

Enquanto passa o tempo faremos uma parada para um descanso.
E deixarei que aguardem em boa companhia...
Voltarei, com certeza.
Leninha Brandão

sábado, novembro 09, 2019

 Memórias de uma senhorinha








E vamos encontrar a nossa senhorinha a alinhavar sonhos e colher estrelas enquanto se debruça sobre a história da baronesa e mergulha em seus pensamentos. Planos de uma nova vida, esperança com nome e endereço de uma aldeia que já se descortinava e lhe acenava com uma promessa...

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A nossa senhorinha havia lido sobre a aldeia:



Ali bem pertinho de Ponte de Lima a escassos 6 km, junto a uma ponte romana, o Moinho de Estorãos convida a uma estadia romântica no seio da natureza. Esta antiga azenha recuperada para turismo no espaço rural, constitui uma unidade autónoma, com quarto, cozinha e sala, preservando o funcionamento da velha mó e a roda de moagem.
A decoração das paredes em pedra confere um ambiente rústico acolhedor com todo o conforto. O mobiliário e objectos tradicionais da terra conferem uma estadia de tranquilidade no campo. No livro de visitantes podemos ler os testemunhos de estadias inspiradoras. A paisagem surpreende pelas belezas naturais e o ar puro da Serra de Arga. Um lugar mágico, em que a poesia do silêncio da natureza faz despertar momentos de emoção embalados pelo ranger da mó nas águas da ribeira, até acordar para tomar um pequeno-almoço com pão fresco e compotas caseiras e partir à descoberta a pé, de bicicleta ou a cavalo nos trilhos .
E este seria o primeiro destino da baronesa com o intuito de desvendar os mistérios da aldeia onde cravaria o seu destino.O silêncio da natureza, a magia do local trariam para ela o encantamento e a delicadeza nos quais sua mente fervilhante se abasteceria para empreender a volta ao regaço das coisas simples.Quantos encantos guardariam as casas e as ruas da aldeia? Quantas histórias o limo daquelas pedras ocultariam?

E eis que chega o tão esperado dia...malas no bagageiro da carruagem e ela, coração aos pulos, se dirigindo ao Rio de Janeiro. Na boléia o fiel cocheiro, triste por estar a conduzir a menina que vira crescer e era um pouco sua filha também
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E o tempo, ah o tempo, que passa célere e caprichoso e a correria para chegar à tempo de pegar o vapor, apagam as últimas lágrimas que teimavam em inundar seus olhos e sua face.Providências devem ser tomadas e conta com a prestimosa ajuda do Jerônimo ( era este o nome do cocheiro)para transportar a bagagem (que não era pequena)para o vapor que já estava atracado no cais.Pessoas iam e vinham em um constante movimento de chegadas e partidas, umas felizes e radiantes e outras carregando o peso do mundo em suas fisionomias.Mas a vida é assim mesmo.

O correr da vida embrulha tudo
A vida é assim;esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta
O que ela quer da gente é coragem.
Guimarães Rosa 

...e coragem não faltava à Baronesa e muito menos à nossa Senhorinha que, dia após dia,fazia do magistério uma missão, não deixando porém de ir á luta por seus direitos.E que não se furtava de liderar uma greve, mesmo tendo que enfrentar a rejeição de todas as colegas, mansas ovelhinhas que caminhavam para o " abate" com um sorriso nos lábios,escondendo a mágoa pelos salários atrasados, ínfimos salários que nem de longe compensavam as horas de fadiga em casa, preparando os planos de aula e as horas de total dedicação aos alunos dentro da sala de aula.
E ela, corajosa e galhardamente, tomou para si a responsabilidade de iniciar a greve e de ir até Belo Horizonte se unir aos demais professores na luta por seus direitos.
Porém este é um assunto para a próxima semana...já me alonguei demasiadamente.

Eu vou, mas voltarei!!! Aguardem!!!




domingo, novembro 03, 2019


Memórias de uma senhorinha
E a nossa senhorinha viajava para os sonhos da baronesa, enquanto seguia para a Faculdade em Barbacena. O ônibus  sacolejava pela estrada esburacada porém o seu pensamento estava longe... imaginava um baú com as roupas da baronesa que, naturalmente viajaria em um vapor...e, também , imaginava os ardis dos quais lançaria mão para convencer aos pais da necessidade que sentia de visitar as aldeias ancestrais em Portugal...e os preparativos que antecederiam a viagem, com as mucamas se desdobrando para preparar, desde as roupas de finos tecidos  aos trajes de gabardine e linho, em cores pastéis e bordados com delicadas  e finas linhas. 
E ao pensamento lhe vinha um poema de Pessoa, preferido da baronesa e que estava entre as cartas do Baú de latão:

Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.


Alberto Caeiro - O Guardador de rebanhos
...e despertava de seus pensamentos com a brusca freada do ônibus parando na rodoviária de Barbacena e trazendo-a de volta á sua prosaica realidade...nada de rendas finas, nada de linhos e organzas, nada de bordados com finas linhas...apenas uma professorinha vestida com uma camisa masculina, uma calça jeans surrada e, nos pés, suas indefectíveis botinas de couro atanado, tão surradas quanto os jeans...

Resultado de imagem para Pinterest Pastel de feira"

parada na pastelaria do Zezé fazia com que a realidade se tornasse mais  vívida: um pastel com caldo de cana levavam o romantismo para bem longe...
Mas devo falar deste pastel...os prazeres da Senhorinha eram bem diferentes dos da baronesa e ela saboreava aquele pastel como se fora um fino acepipe, dourada iguaria  que a conduzia á presença da avó, inesquecível vovó Quitita que era a sua referência nesta matéria, preparando pastéis e as deliciosas " mentirinhas"  que enfeitaram e alegraram a sua infância...
Ah, se não conhecem as " mentirinhas" devo lhes explicar que eram massinhas de pastel recortadas em tirinhas e fritas... dos deuses, como diria minha irmã...
Não devo me alongar mais...
Eu vou, mas voltarei...

Leninha Brandão


Caetano Veloso - Terra

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