SONHOS E ENCANTOS

SONHOS E ENCANTOS

quarta-feira, agosto 30, 2017


Memórias de uma senhorinha


Dores de Campos...cidade calma, tranquila e repleta de belas histórias. Seu povo hospitaleiro a conquistou ... não havia a Laje Encantada porém a Figueira Encantada, cuja beleza apresentava um fascínio irresistível


Ao fundo da praça da figueira, ao lado direito, vê-se uma casa comprida, grande e antiga (com formato em L). Esta casa foi o que se chamava, até o século XIX, de “Casa Grande”, denominação dada à casa principal de uma fazenda. Foi  uma das primeiras casas do Distrito de Dores do Patusca no século XVIII e era dividida em três compartimentos, onde residiam três famílias (vale destacar que atualmente, esta casa está muito modificada, pois sua estrutura original era de pau-a-pique, assoalhos de tábuas, portas e janelas em madeira nobre e maciça, uma casa realmente de fazenda).
Nesta mesma época,séc XVIII, foi construído em sua proximidade um curral, onde foram fincados alguns mourões, um destes parte de uma figueira, que ainda verde, em pouco tempo começou a brotar. Com o passar dos tempos, esse mourão veio a se transformar em uma grande e bonita árvore, que, pelo formato de seus galhos, assume a forma de guarda-chuva e que tem uma dimensão bem definida pelo tronco que mede cerca de dois metros de diâmetro e galhos de quatorze metros.

E em seu peito começou a brotar um sentimento de pertencimento àquele lugar. A magia da árvore secular, o modo como as pessoas reverenciavam a sua presença, a casa em que morava, com sua cozinha imensa lembrando uma cozinha de fazenda, foram fatores preponderantes desta mudança de atitude em relação à nova cidade. Nesta ocasião conheceu uma pessoa que seria muito importante em sua vida... seu amigo Beto, pessoa dotada de uma sensibilidade transbordante, um artista nato que organizava as festas da cidade e trazia alegria aos lugares onde chegava. Já estava vencendo o contrato de aluguel da casa e ele a convenceu a se mudar para outra na avenida principal da cidade. Houve , então, uma mudança radical em sua rotina. A amiga Drinha fez concurso para a área de fiscalização do Estado e teve que assumir o seu posto em Iturama, cidade do Triângulo Mineiro, distante de Dores de Campos e onde faria plantões de dez dias...só viria após este tempo, ficando em casa durante vinte dias.O filho mais novo, Dudu, viria morar com ela ...esta história é longa, cheia de peripécias e merecerá um capítulo à parte.
 Beto passou a ir todos os dias à sua casa, após o trabalho e com ele levava os amigos: Pacelli ( O Tiel) , Quincas ( Filho do proprietário da casa, Myriam e Maria José. Mais tarde o também grande amigo Emetério , primeira pessoa trans que ela conheceu, em uma época em que não se falava sobre este assunto.Amigos fiéis que lhe davam suporte e apoio em sua nova vida.


E ,como os amigos que se reuniam na fazenda, eram realmente indispensáveis à sua vida e até hoje habitam as suas recordações.
E quando a Drinha estava em casa retomavam os passeios aos arredores buscando conhecer a riqueza histórica e as belezas naturais da região. Na estrada para Prados conheceram a casa da Baronesa, belíssima construção dilapidada pelo tempo mas ainda rica de mistério e magia.
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 Minas são muitas , já dizia Guimarães Rosa e necessário se faz concordar .

E Drummond afirmava em seu soberbo poema:


E com a palavra do Mestre eu me despeço. Mas voltarei, amigos!

Leninha Brandão       








sexta-feira, agosto 25, 2017

Barbacena-Cidade das Rosas

Memórias de uma Senhorinha
Surpresas boas a aguardavam em Dores de Campos...a casa era perfeita e acomodaria confortavelmente os móveis e as pessoas que viessem...e ela amava receber pessoas...para onde quer que fosse. Os filhos, os irmãos, os amigos, todos teriam espaço naquela casa...e ainda havia um porão enorme (não era ainda o sótão dos seus sonhos, mas era o ideal para suas reuniões com os amigos). Não vou apoquentá-los com os detalhes da mudança... são cansativos e não vem ao caso. Vamos encontrá-la já às voltas com a decoração da nova residência, o que a fazia esquecer a tristeza que fora a partida de Resende Costa. E já imaginava cada cantinho, com suas colchas a decorar as paredes e as camas, seus quadros, suas lembranças e sua vastidão de sonhos.
A gente não pode ter tudo, mas a esperança e o sorriso não podem ficar para trás.
 Logo ficou conhecendo Lourdes...trabalhava na pensão em frente à casa e , muito amável, ofereceu-se para lavar –lhe as roupas.( A mãe era lavadeira e passava roupas como ninguém.) E todos os dias passava para trocar uns dedinhos de prosa com ela. Também se tornou amiga do rapaz que havia indicado a casa. Era dono do açougue em cuja porta estava sentado naquele dia.


Ao lado da casa havia um canteiro e seu sonho de ter novamente flores se realizaria...comprou mudas de rosas em Barbacena (Cidade das Rosas, lembram-se?) Sementes de alyssum foram lançadas ao solo e dentro de pouco tempo estavam brotando, alegrando a entrada da casa e o coração de nossa amiguinha.


E os dias transcorriam e a cidade foi se tornando simpática...novas amizades surgiram , os amigos André e Cláudio vinham sempre e faziam gostosos serões ao som do violão da Drinha e das vozes dos amigos.  O porão foi todo decorado com chitões cobrindo os estrados e colchas , muitas e coloridas colchas nas paredes e no chão , à guisa de tapetes.Mais ou menos como na imagem, um perfeito porão para amigos se reunirem.
Imagem Pinterest
Muitas acontecências ainda virão  povoar a vida e os dias de nossa senhorinha, porém não devo me alongar. Aguardem os próximos episódios!!!
Eu vou, mas voltarei!!! 




Leninha Brandão


sábado, agosto 19, 2017

Memórias de uma senhorinha

Imagem da Net

"Sempre tive pés falhos. Pés que falharam na vontade de prosseguir. Na ânsia de deixar pra trás. Que falharam na curiosidade de descobrir o que havia pela frente.
Sempre tive pés medrosos. Como será o solo ainda desconhecido? Movediço? Árido? Cheio de espinhos? Medos famintos que engoliram a necessidade de andar para frente.
Sempre tive pés tortos. Sempre pisei nas suas extremidades. Nunca de pé cheio. Talvez pelas incertezas da caminhada. Ou talvez porque viver é caminhar torto mesmo: cambaleando nas pernas, procurando por algo em que se apoiar.
Sempre tive pés que minavam meus movimentos. Que me deixavam parado, à espera do que nunca veio. Do que nunca viria.
Mas sempre abriguei, adormecida em algum lugar entre o joelho e o calcanhar, uma gota de coragem suficiente para dar ao meu pé a força para o próximo passo. Com pé direito. Em solo fértil. Ao encontro da flor que me recebeu com um sorriso. Que me fez desabrochar.“
(João Célio Caneschi)

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E as palavras do poeta martelavam em sua cabeça enquanto o carro engolia a distância que os separava da resposta tão esperada.
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A viagem até Barbacena transcorreu no mais profundo silêncio...pensamentos se multiplicavam na cabeça de nossa senhorinha e ela, sempre tão falante, emudeceu e levou os demais ao mesmo respeitoso silêncio. Só se ouviam os ruídos dos pneus , inicialmente sobre a terra e depois sobre o asfalto, após passarem por Barroso. Em direção à Barbacena a estrada era movimentada, com caminhões transportando cimento , o que impedia o livre fluxo dos carros...muitas curvas impediam a ultrapassagem e era uma viagem cansativa e entediante, principalmente quando se ansiava pela chegada.


E nossa amiguinha meditava, alheia ao movimento e à chuvinha fina que molhava a pista e dificultava a visão. Sempre alimentara a esperança de um dia morar em um lugar “para sempre”... Resende Costa se afigurara este local e já se via velhinha, visitando o asilo, convivendo com a amiga Tininha e sentindo o tempo escorregando preguiçosamente por entre os seus dedos... seus pés percorreriam as mesmas ruas e ladeiras, seu olhar se demoraria nas longínquas montanhas e suas mãos criariam rugas enquanto deslizassem sobre a trama daquelas colchas coloridas. 
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Enfim chegaram à Barbacena, cidade que exercia sobre ela um encanto inexplicável... suas casas coloniais, a tradição das antigas famílias, o belo Jardim do Globo, a imponente residencia dos Andradas ( O solar de tantas histórias), a Estação da Central do Brasil, a Matriz de Nossa Sra da Piedade...enfim, aquele ar de "antigamente" que ela tanto apreciava e parecia fazer parte de "outras vidas"...











Era necessário procurar o endereço do proprietário da residência e deixar os devaneios...
Informaram-se e para lá se dirigiram. Era uma papelaria muito simpática no Beco Treze de Maio.Foram atendidos por uma senhora de agradável fisionomia que logo solicitou a presença do Sr. Mourão, também  solícito e agradável. Inicialmente não demonstrou o mínimo interesse em alugar a casa, construída para o filho e que lhe trazia tristes lembranças... bastou-lhe porém escutar os motivos de nossa senhorinha e seus convincentes argumentos, para que mudasse de ideia. Combinaram os detalhes , assinaram o contrato e pronto!!! , estava feito, já eram as inquilinas do simpático senhor. Agora era voltar à Dores de Campos e conhecer a nova residência.E agradecer ao Eterno... e ao jovem rapaz que havia dado as informações.
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E vamos deixar para a próxima conversa a visita à casa tão desejada.

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Eu vou, mas voltarei... aguardem!


Leninha Brandão

quarta-feira, agosto 09, 2017

Memórias de uma Senhorinha

Memórias de uma Senhorinha
E o tempo , este senhor Implacável e do qual não podemos fugir, anunciava o final das férias e o temido momento da despedida. Malas feitas, corações apertados e um adeus que não seria por muito tempo, porém machucava como se o fosse.
Volta à rotina e aos afazeres diários...a busca por novidades nas casas das artesãs e os preparativos para uma nova incursão ao mundo dos negócios. Os olhos brilhavam ao descobrir colchas mais elaboradas e almofadas mais macias e coloridas. Brevemente estaria pronta para uma nova viagem ao Rio de Janeiro, levando nas malas a beleza e o sonho que alegrariam várias casas.
Enquanto tal não acontecia, um problema surgiu para lhe tirar o sono e o bom humor habituais. A amiga Drinha trabalhava na Coletoria Estadual  e para a cidade foi designada uma juíza cujo marido também era Coletor em outra cidade.Na época( Não sei se atualmente existe), não havia uma legislação que assegurasse ao marido o acompanhamento da esposa para o município para onde ela fosse nomeada. O casal , então, apavorado com a situação, passou a visitar as nossas amigas todos os dias, pedindo que se mudassem para outra cidade...a Drinha , no caso, deveria pedir a sua transferência para outro município afim de favorecer o jovem esposo.
Nossa senhorinha amava Resende Costa como se sua terra fosse... mais uma mudança em sua vida? Noites e noites mal dormidas e o casal a insistir de uma forma quase que desrespeitosa...feria os seus sentimentos e ela se mortificava a cada visita.
Mas, já dizem os antigos, “água mole em pedra dura tanto bate até que fura”... e sua resistência foi se enfraquecendo . Em um sofrido e frio dia ela concordou. Foram conhecer a cidade para a qual pediriam , muito à contragosto, a sua remoção, transferência, mudança...
Em uma tarde triste e desoladora, pegaram a estrada sem nenhuma alegria e rumaram para o seu futuro destino: Dores de Campos , cujo nome trazia para elas um significado nada agradável.
                                
Dores de Campos é um município brasileiro do estado de Minas Gerais. Fica cerca de 40 km de São João Del Rei e 35 km de Barbacena via BR-265.

Vista parcial da cidade em 2008.
Na época que ainda era um pequeno povoado chamado Povoado do Patusca, os tropeiros amarravam os cavalos em um tronco para almoçar e descansar os seus animais, onde futuramente nasceu neste mesmo local a denominada "Figueira Encantada". Este nome foi dado por historiadores uma vez que este mourão onde amarravam-se os animais não tinha vida alguma e posterior a isso nasce deste mourão uma Bela Figueira.
Assim como suas cidades vizinhas, Dores de Campos faz parte da rota Estrada Real e Trilha dos Inconfidentes.


Fonte: WIKIPEDIA   


Não lhes direi que a cidade a encantou à primeira vista 

pois estaria mentindo. Estava saindo de um sonho e 

entrando na realidade. E por mais que se tenha boa 

vontade, é bem difícil esta barganha...onde o por do

sol com o qual era presenteada todos os dias? Onde os 

artesãos com suas belas colchas e tapetes? Onde a 

magia da Laje Encantada?
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E para completar , perguntando aos moradores se encontraria casa para alugar, a resposta não poderia ser mais decepcionante... simplesmente disseram que não havia casa para alugar na cidade... os pais construíam casas para os filhos e ninguém alugaria a própria casa para um estranho. 

Os dois amigos , André e Cláudio tentavam melhorar o seu desapontamento, porém nada a tirava daquele estado de desilusão no qual mergulhara. Resolveram almoçar na Pensão do Sr Bembém (recomendada por um funcionário da Coletoria) e retornar à Resende Costa dispostas a convencer o "amável casal" da impossibilidade, da inviabilidade daquela mudança. 
Após o almoço, resolveram caminhar um pouco antes de enfrentar as duas estradas " de chão"... o asfalto ainda não havia chegado aos dois municípios, Resende Costa e Dores de Campos.
Em frente à pensão , uma casa chamou a atenção de nossa senhorinha. Mesmo mergulhada em sua profunda decepção, o seu instinto de observação não a abandonara. Sentado à porta de um açougue , um rapaz de fisionomia  simpática, observava os quatro. Obedecendo a um impulso ela lhe perguntou se aquela casa estava vazia. Qual não foi a sua surpresa quando a resposta foi afirmativa!!! O proprietário havia construído aquela casa para o filho e este havia falecido, sem nunca a ter habitado . Morava em Barbacena e para lá se dirigiram...

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Vamos fazer uma pausa para um "fechar de cortinas" temporário. Vou , mas voltarei. Aguardem!!!

Leninha Brandão





terça-feira, agosto 01, 2017

Memórias de uma Senhorinha


E nossa senhorinha se alegrava com a presença da família e os conduzia a todos os locais que admirava e sabia que apreciariam muito.
 Foi uma verdadeira peregrinação : Prados, São João Del Rei, Tiradentes e toda a vizinhança de Resende Costa : pontos turísticos, matas, estradinhas bucólicas que sempre a fascinaram e à irmã.


A mãe se encantou pelas igrejas seculares e pelo Barroco presente em todas elas. Era muito piedosa e tinha o hábito de assistir à missa todos os dias. Quando se mudavam ( E foram tantas vezes!!!) , sua principal exigência era morar perto de uma Igreja. E sempre havia conseguido...em Ponte Nova moraram ao lado de uma e para sua grande tristeza  não havia celebração diária de Missa na mesma. Para se chegar em casa subiam cento e tantos degraus , o que para nossa senhorinha não representava sacrifício algum ( tinha nove anos de idade e uma energia invejável) , mas para a avó, já na casa dos sessenta, significava ficar em casa ou sair somente de carro.
Mas vamos deixar as tergiversações e voltar aos nossos passeios...

Em Prados foi o irmão que se encantou com as botinas de couro, daquelas com um elástico e que eram usadas pelos cavaleiros ou vaqueiros...


E ela, que gostava de se vestir de uma forma nada convencional, quis também um par daquelas botinas. E saíram os dois como pares de jarras, felizes da vida. Com suas surradas calças jeans exibiam o ar de felicidade que as coisa simples proporcionam às pessoas de alma pura. 
Saíram da fábrica e a Mãe já apontava para a Igreja de Prados...


"A Igreja de Nossa Senhora do Rosário se destaca na paisagem de Prados com um singelo frontispício. 

Seu interior é simples. O retábulo-mor não possui talha elaborada e é composto apenas de madeiras com recortes sinuosos. A decoração é finalizada com delicadas pinturas rococó. Em seus nichos, estão dois santos negros: Santa Ifigênia e Santo Antônio de Cartegerona. No forro da capela-mor, existe uma interessante pintura com a temática do Apocalipse.   

Junto ao arco-cruzeiro, está o único altar lateral, que é dedicado a Nossa Senhora das Mercês. Diferente do altar-mor, este possui uma talha elaborada mas não recebeu douramento e policromia."

E ao entrarem na Igreja , o ritual que cumpriam todas as vezes que entravam pela primeira vez em um templo religioso :
Três Pai   Nossos
Três Ave Marias
Três Glórias ao Pai
Em seguida , um pedido. E muita Fé no coração!

A tardinha já se aproximava e os sinos tocavam o Angelus.A beleza daquele momento ficaria para sempre na mente de todos eles. Caminhos diversos os levariam, emoções novas preencheriam os seus dias, mas aquela permaneceria tatuada em seus corações.Indelevelmente!!!

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Mais passeios faremos com eles. 

Aguardem! 

Eu vou, mas voltarei...


Leninha Brandão




      As palavras do poeta martelavam em sua cabeça... sabia do cair e do levantar também... tantas vezes experimentara o caminho resva...

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