SONHOS E ENCANTOS

SONHOS E ENCANTOS

segunda-feira, novembro 18, 2019


Memórias de 
UMA SENHORINHA
Nossa senhorinha , de volta á casa, após as cansativas negociações em Belo Horizonte, se refugia em seus sonhos e passa a imaginar a continuação da história da baronesa, lago tranquilo e transparente no qual se viam flores e nenúfares, encanto e poesia...
E pensava que necessário se fazia deixar de lado aquilo que se julgava prioridade e que para os outros não passava de " caprichos de moça da cidade grande"...e a vida tem esta arte, a magia de nos libertar daquilo que nos apaga o sorriso...e este sorriso fazia parte da vida de nossa " menina dos cachos" desde a infância, lá na longínqua Manhumirim.
Calçou então as suas botinas e deixou que o pensamento viajasse para o mundo da imaginação onde nada era proibido e não havia barreiras para os seus sonhos.


Uma casa para a baronesa



Após a longa viagem, cansativa e demorada, encontraremos a nossa baronesa  já instalada em sua casa, herança dos avós portugueses. Não tinha a riqueza da casa paterna, porém correspondia perfeitamente às suas necessidades atuais. E ela já sonhava com a criança correndo pelo jardim, cachinhos ao vento e a sua vozinha a chamá-la, meiga e doce criaturinha que traria luz e sol à sua existência. 
Contratou uma costureira e empenhou-se na confecção do enxovalzinho elaborado com peças de finos tecidos, rendinhas e cambraias , linhas e agulhas.                                

 E , aos poucos, foi-se desenhando o ambiente em que viveria aquela criança já tão amada e desejada, fruto de um amor  intenso e destinado à eternidade.



 Uma carta, relatando toda a magia do local, foi enviada para o seu amado que já deveria estar ansioso por notícias,principalmente após ter recebido a missiva anterior em que punha um ponto final ao 
relacionamento, deixando-o sem esperanças , totalmente sem esperanças.E esperança era o que habitava o coração e a mente da baronesa, inteiramente devotada àquele amor e aos preparativos que tornariam a casa um ambiente propício à uma vida tranquila e feliz.A decoração, rústica e aconchegante, retratava o espírito da aldeia...as paredes de pedra, a lareira, os tapetes de tear manual traziam o calor necessário à sala de estar. Do teto alto pendia um belo lustre iluminando o ambiente. Confortáveis poltronas ofereciam o conforto e a total harmonia com o ambiente.







Canção do Amor

Tu és a corça e eu o cervo,
pássaro tu e eu a árvore,
o sol tu e eu a neve,
 tu és o dia e eu o sonho.
De minha boca adormecida
à noite um pássaro de ouro voa a ti:
tem a voz clara, multicolores asas,
e vai cantar-te a canção do amor
 - e vai cantar-te a canção de mim.

Hermann  Hesse

Enquanto passa o tempo faremos uma parada para um descanso.
E deixarei que aguardem em boa companhia...
Voltarei, com certeza.
Leninha Brandão

sábado, novembro 09, 2019

 Memórias de uma senhorinha








E vamos encontrar a nossa senhorinha a alinhavar sonhos e colher estrelas enquanto se debruça sobre a história da baronesa e mergulha em seus pensamentos. Planos de uma nova vida, esperança com nome e endereço de uma aldeia que já se descortinava e lhe acenava com uma promessa...

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A nossa senhorinha havia lido sobre a aldeia:



Ali bem pertinho de Ponte de Lima a escassos 6 km, junto a uma ponte romana, o Moinho de Estorãos convida a uma estadia romântica no seio da natureza. Esta antiga azenha recuperada para turismo no espaço rural, constitui uma unidade autónoma, com quarto, cozinha e sala, preservando o funcionamento da velha mó e a roda de moagem.
A decoração das paredes em pedra confere um ambiente rústico acolhedor com todo o conforto. O mobiliário e objectos tradicionais da terra conferem uma estadia de tranquilidade no campo. No livro de visitantes podemos ler os testemunhos de estadias inspiradoras. A paisagem surpreende pelas belezas naturais e o ar puro da Serra de Arga. Um lugar mágico, em que a poesia do silêncio da natureza faz despertar momentos de emoção embalados pelo ranger da mó nas águas da ribeira, até acordar para tomar um pequeno-almoço com pão fresco e compotas caseiras e partir à descoberta a pé, de bicicleta ou a cavalo nos trilhos .
E este seria o primeiro destino da baronesa com o intuito de desvendar os mistérios da aldeia onde cravaria o seu destino.O silêncio da natureza, a magia do local trariam para ela o encantamento e a delicadeza nos quais sua mente fervilhante se abasteceria para empreender a volta ao regaço das coisas simples.Quantos encantos guardariam as casas e as ruas da aldeia? Quantas histórias o limo daquelas pedras ocultariam?

E eis que chega o tão esperado dia...malas no bagageiro da carruagem e ela, coração aos pulos, se dirigindo ao Rio de Janeiro. Na boléia o fiel cocheiro, triste por estar a conduzir a menina que vira crescer e era um pouco sua filha também
.
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E o tempo, ah o tempo, que passa célere e caprichoso e a correria para chegar à tempo de pegar o vapor, apagam as últimas lágrimas que teimavam em inundar seus olhos e sua face.Providências devem ser tomadas e conta com a prestimosa ajuda do Jerônimo ( era este o nome do cocheiro)para transportar a bagagem (que não era pequena)para o vapor que já estava atracado no cais.Pessoas iam e vinham em um constante movimento de chegadas e partidas, umas felizes e radiantes e outras carregando o peso do mundo em suas fisionomias.Mas a vida é assim mesmo.

O correr da vida embrulha tudo
A vida é assim;esquenta e esfria,
aperta e daí afrouxa,
sossega e depois desinquieta
O que ela quer da gente é coragem.
Guimarães Rosa 

...e coragem não faltava à Baronesa e muito menos à nossa Senhorinha que, dia após dia,fazia do magistério uma missão, não deixando porém de ir á luta por seus direitos.E que não se furtava de liderar uma greve, mesmo tendo que enfrentar a rejeição de todas as colegas, mansas ovelhinhas que caminhavam para o " abate" com um sorriso nos lábios,escondendo a mágoa pelos salários atrasados, ínfimos salários que nem de longe compensavam as horas de fadiga em casa, preparando os planos de aula e as horas de total dedicação aos alunos dentro da sala de aula.
E ela, corajosa e galhardamente, tomou para si a responsabilidade de iniciar a greve e de ir até Belo Horizonte se unir aos demais professores na luta por seus direitos.
Porém este é um assunto para a próxima semana...já me alonguei demasiadamente.

Eu vou, mas voltarei!!! Aguardem!!!




domingo, novembro 03, 2019


Memórias de uma senhorinha
E a nossa senhorinha viajava para os sonhos da baronesa, enquanto seguia para a Faculdade em Barbacena. O ônibus  sacolejava pela estrada esburacada porém o seu pensamento estava longe... imaginava um baú com as roupas da baronesa que, naturalmente viajaria em um vapor...e, também , imaginava os ardis dos quais lançaria mão para convencer aos pais da necessidade que sentia de visitar as aldeias ancestrais em Portugal...e os preparativos que antecederiam a viagem, com as mucamas se desdobrando para preparar, desde as roupas de finos tecidos  aos trajes de gabardine e linho, em cores pastéis e bordados com delicadas  e finas linhas. 
E ao pensamento lhe vinha um poema de Pessoa, preferido da baronesa e que estava entre as cartas do Baú de latão:

Da minha aldeia vejo quando da terra se pode ver no Universo....
Por isso a minha aldeia é grande como outra qualquer
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura...

Nas cidades a vida é mais pequena
Na cidade as grandes casas fecham a vista a chave,
Escondem o horizonte, empurram nosso olhar para longe de todo o céu,
Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nossos olhos nos podem dar,
E tornam-nos pobres porque a única riqueza é ver.


Alberto Caeiro - O Guardador de rebanhos
...e despertava de seus pensamentos com a brusca freada do ônibus parando na rodoviária de Barbacena e trazendo-a de volta á sua prosaica realidade...nada de rendas finas, nada de linhos e organzas, nada de bordados com finas linhas...apenas uma professorinha vestida com uma camisa masculina, uma calça jeans surrada e, nos pés, suas indefectíveis botinas de couro atanado, tão surradas quanto os jeans...

Resultado de imagem para Pinterest Pastel de feira"

parada na pastelaria do Zezé fazia com que a realidade se tornasse mais  vívida: um pastel com caldo de cana levavam o romantismo para bem longe...
Mas devo falar deste pastel...os prazeres da Senhorinha eram bem diferentes dos da baronesa e ela saboreava aquele pastel como se fora um fino acepipe, dourada iguaria  que a conduzia á presença da avó, inesquecível vovó Quitita que era a sua referência nesta matéria, preparando pastéis e as deliciosas " mentirinhas"  que enfeitaram e alegraram a sua infância...
Ah, se não conhecem as " mentirinhas" devo lhes explicar que eram massinhas de pastel recortadas em tirinhas e fritas... dos deuses, como diria minha irmã...
Não devo me alongar mais...
Eu vou, mas voltarei...

Leninha Brandão


quarta-feira, outubro 30, 2019

Memórias de uma Senhorinha


Lá, distante que nem seiNotas musicais de fundo vetor de notas musicais de fundo e mais banco de imagens de 2015 royalty-free

A tarde cai, vem a noite e vamos encontrar a nossa senhorinha, única pessoa acordada na casa e, talvez, em toda a cidade. Sentada em uma romântica poltroninha, tem a cabeça fervilhante de pensamentos...

 Nossa senhorinha devaneia e em seus sonhos imagina uma aldeia que possa servir de abrigo para uma jovem baronesa imersa em seus problemas e disposta a procurar uma nova vida.

 Em um Atlas antigo e surrado encontra um paraíso , ideal e atraente, totalmente diverso da fazenda onde vivia a nossa heroína. O nome "ESTORÃOS", não lhe é muito atraente, porém as fotos mostram uma aldeia bucólica e afastada da civilização.

Estorãos é uma pequena aldeia minhota situada a cerca de seis quilómetros de Ponte de Lima onde corre a ribeira que lhe dá o nome. As águas vindas do alto da serra de Arga serpenteiam no meio de pinheiros, vinhas e campos estrumados criando pequenos lagos e represas onde trutas e lampreias se escondem de turistas e pescadores.

Por Joseolgon - Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=4197708
A paisagem é magnífica. O recorte azulado e sombrio da serra contrasta com o verde dos campos e as cores outonais das vinhas e searas criando verdadeiros jardins que pedem muitos passeios e descobertas rústicas. De cada lado da ribeira várias casas de granito e outras mais modernas formam uma pequena aldeia ligada por uma velha ponte românica. Do lado direito da ponte, um moinho de pedra com a roda de madeira intacta parece uma sentinela nas águas calmas próprias dos dias em que não chove.

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Foi esta aldeia a escolhida por uma baronesa ávida por um local longínquo que a afastasse da realidade caótica vivenciada por ela neste momento. Era prudente que se afastasse, mas apesar do dito na carta, não cogitava em momento algum, de um rompimento definitivo. Mister se fazia, entretanto , não alimentar ilusões em seu amado. 


Mas voltemos à nossa senhorinha. Sua rotina não podia parar e nem ela entregar-se à  devaneios em todos os seus momentos. Planos de aula a aguardavam, alunos sedentos de histórias, de novas expedições às matas vizinhas...mágicos lápis de cor, fechados em suas caixas, deveriam ser descobertos e utilizados, músicas precisariam ecoar naquela sala, com novos ritmos a serem pesquisados...e a leitura de sons diversos além das vogais cantadas por eles com entusiástico fervor:

Somos cinco amiguinhos 
que se querem muito bem,
cada qual fala sozinho 
não precisa de ninguém

Aa Ee Ii Oo Uu !!!!!!!!

assim como as notas musicais em uma melodia do filme 
"A Noviça Rebelde"Notas musicais de fundo vetor de notas musicais de fundo e mais banco de imagens de 2015 royalty-free

Dó é pena de alguém
Ré é sempre para trás
Mi,pronome que não tem
Fá que falta que me faz
Sol, o nosso astro Rei
Si, de sino e de sinal
e afinal voltei ao Dó
Dó Ré  Mi Fá Sol Lá Si Dó

E os alunos vibravam ao cantar e as outras crianças da escola gostariam de estar naquela " Classe Especial"...

E a cada dia, uma vitória...e a cada vitória a felicidade refletida naqueles olhinhos de crianças ,antes tão discriminadas e que, hoje ,se sentiam valorizadas e queridas.E uma professora radiante de alegria com estas vitórias e estes resultados.

Aceitação e acolhimento são necessidades básicas de todo ser humano...

E agora é hora do descanso de nossa senhorinha...

Eu vou, mas voltarei...aguardem as novas aventuras.



segunda-feira, outubro 21, 2019

Memórias de uma senhorinha

E a nossa senhorinha está de volta..ao pé de seu fogão à lenha,enquanto a água ferve para passar um café, se debruça sobre a primeira carta,percebendo pela caligrafia elegante, embora trêmula, o traço refinado de uma dama antiga(seria a própria baronesa?)
Pára um instante, coloca a água fervente sobre o pó e logo o aroma se espalha pela cozinha, atraindo os amigos que na sala esperavam por este momento.O amigo Beto ( o predileto),se aproxima enquanto os demais aguardam que ele seja servido. Tomam depois assento à mesa e saboreiam o cafezinho. Após conversarem um pouco todos se despedem e vão para as suas casas deixando a nossa amiga à vontade para desvendar o mistério da carta. ............................................
Mãos cuidadosas rompem o lacre já escurecido pelo tempo.Uma pétala de rosa, já sem cor, cai sobre o seu colo...e as primeiras palavras saltam aos seus olhos:


Meu amado,
Quando leres estas linhas já estarei do outro lado do oceano...sinto-me sem forças para lutar contra tudo e contra todos. Meu pai descobriu que nos encontrávamos e não aceitou de forma alguma o nosso amor. Nem mesmo teu nome pode ser pronunciado nesta casa. Uma maldição pesa sobre nós e tenho medo do que possa te acontecer. Não tente me encontrar...é perigoso demais.
Nosso filho nascerá a salvo de meu pai e de seus capangas. Eu o protegerei com minha própria vida, se necessário for.
Tua, sempre tua,
Alice
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Nossa senhorinha termina a leitura e seu pensamento a conduz à casa da baronesa, visualizando uma linda moça, debruçada sobre uma elegante escrivaninha com os longos cabelos espalhados sobre a carta, ponto final de um tresloucado romance que havia tomado conta de seu coração e de sua mente durante o passeio à Corte.Menina provinciana, criada no campo,se deslumbrara com as festas e com a atenção de um garboso tenente da guarda da Imperatriz. Mal sabia que as suas famílias eram inimigas e que os pais se odiavam.Para proteger o amado decidira, após longos dias de incerteza e dúvida,partir para uma aldeia bem distante na terra de seus antepassados, Portugal, onde decerto estaria a salvo. 
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Enquanto a nossa senhorinha viajava no tempo e no espaço, mergulhada em sua fértil imaginação, o dia já se despedia...a última luz se extinguia lentamente e só os lampejos do pôr do sol tremeluziam no fim da rua, avistada por ela de sua janela envidraçada...era a sua hora preferida, a hora do Angelus, os sinos repicavam na Igrejinha e não mais deveria se entregar aos devaneios. 
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E também eu me despeço deixando para outro dia as Memórias de uma Senhorinha.

Leninha Brandão


quinta-feira, janeiro 04, 2018

Memórias de uma Senhorinha

Abrindo o baú

E nossa Senhorinha, tendo já resolvido os problemas dos alunos, poderia tranquilamente sossegar e usufruir sossegadamente os louros da vitória...mas, e há sempre um mas rondando a cabeça de nossa amiguinha...sua curiosidade a impelia e a levava a novos questionamentos.Agora o que a movia era o interesse em desvendar o conteúdo do misterioso baú que trouxera da casa da baronesa, esquecido em um canto da casa.


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E como nossa senhorinha não gostava de adiar nada, foi ao encalço do seu sonho: buscar uma forma de abrir o baú (que não era de OSSOS , como o de Pedro Nava), guardado durante tanto tempo no sótão de sua casa. Munida de uma chave de fenda se pôs a forçar o pequeno cadeado já enferrujado, não oferecendo portanto resistência alguma. Um estalo e eis que se abre, mostrando o interior do baú... um amarrado de cartas amareladas foi o que lhe chamou a atenção primeiramente... uma bela caligrafia se destacava e sua fértil imaginação já desenhava uma delicada mão a escrevê-las. Nos dedos, anéis se mostravam e uma diáfana manga cobria os pulsos frágeis. 
Deveria continuar? Dúvida atroz a invadia, fazendo com que tremesse naquela indecisão... fez uma pausa e se quedou a pensar. As pessoas que poderiam se interessar pelo assunto já não existiam, não havia descendentes da baronesa e ninguém sabia nada sobre os antigos habitantes daquela casa... constatara tal fato após indagações aos mais antigos moradores do vilarejo mais próximo.
O que a fazia relutar ? Ela que sempre se atirara com sofreguidão aos seus objetivos, sentia um certo pudor , até mesmo um certo constrangimento em tocar o intocável (aos seus olhos)...

Pensou durante horas a fio, mediu as possibilidades e, finalmente decidiu-se... abriria a primeira missiva e saberia, então, se deveria continuar.
Deveria , no entanto, deixar para o dia seguinte a sua empreitada... o dever a chamava e os planos de aula não podiam esperar.

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Vou deixá-los com esta curiosidade a estimular as cabecinhas de vocês... o que haveria nas cartas. Alguém poderia imaginar???

Amanhã retornarei... ou depois de amanhã. Encontrem-me aqui.


Leninha  Brandão

quarta-feira, novembro 22, 2017

  
  
As palavras do poeta martelavam em sua cabeça... sabia do cair e do levantar também... tantas vezes experimentara o caminho resvaloso e não ficara inquieta nem triste por estas armadilhas da vida. Aprendeu a ficar de cabeça erguida e sempre alegre caminhava por seus caminhos. Algumas rosas colhidas,  alguns espinhos nada agradáveis, porém no peito uma confiança imensa no futuro e na Providência divina.
Enquanto fazia a lista dos materiais necessários à sua turminha pensava que valia a pena confiar e crer... as rosas estavam aí.
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Mãos à obra, portanto,  que o Tempo assim  exige. Não vou me deter nas compras,  nos detalhes burocráticos para finalizar o processo, nem nas andanças em busca de um preço mais justo. A viagem não se resume ao chão que descalços pisamos e sentimos... ela está contida nos sentimentos que devagarinho vão nos povoando e no brilho que invade a nossa alma e transborda pelos nossos olhos.

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E eis que, como em um passe de mágica,  a sala ficou pronta!  Rufemos os tambores para receber os principais protagonistas desta história!  Que  chegaram,  tímidos e envergonhados,  àquela que seria a sala dos sonhos de qualquer criança e que,  eles, sempre tão menosprezados por todos, haviam conquistado graças àquele moço gentil e atencioso que viera de longe... trazido por um anjo talvez ...
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Bolas coloridas que enfeitavam a entrada e uma farta mesa de café da manhã os receberam. O som da alegria vinha na voz das crianças da Turma do Balão Mágico... com o disco rodando na eletrolinha,   os enfeites na parede,  as mesinhas dispostas em círculo e o belo armário repleto de cores, o encantamento era total... lápis,  cadernos, livros de histórias e, sobre cada mesinha, uma bandeja com as delícias especialmente feitas para eles.
Haviam ensaiado um jogral para homenagear o agora amigo Neil.
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Devo, porém, fazer um parêntesis para contar-lhes sobre a véspera da festa. Munida de sabonete, shampoo, pente e toalhas, nossa amiguinha fez a toalete de cada um (alguns nem sequer penteavam os cabelos antes de vir à escola). Eram treze alunos e ela se dedicou a cada um.
 Imaginem a ansiedade que invadia aquelas cabecinhas ao se prepararem... uma das meninas, a Janete,  não tinha mesmo tempo de se arrumar. Cuidava de três irmãozinhos menores desde que havia perdido a mãe. O pai trabalhava muito e a encarregara do trabalho materno... doze anos e o olhar perdido e triste de uma pessoa mais velha. Quando a nossa senhorinha começou a lavar-lhe os cabelos, antes embaraçados e desbotados,  começou a surgir uma linda cabeleira loura a emoldurar um rostinho de porcelana. Os olhinhos azuis criaram um novo brilho e um sorriso enfeitou aquele rostinho antes tão tristonho. A blusinha nova, uma sainha, sandálias nos pés limpinhos e, para arrematar, um laço de fita da cor dos seus olhos. Foi uma nova menina que ela levou para a sala... as crianças a olhavam sem acreditar... de repente,  um dos meninos falou, interrompendo o silêncio :
"Gente,  a Janete é BONITA! "

A emoção foi muito grande e nossa senhorinha teve que disfarçar a lagrimazinha que teimava em querer cair.
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Voltemos à festa, antes que a emoção se repita...
O jogral foi um sucesso!  Os meninos, entusiasmados,  felizes com os aplausos. E uma homenagem tocante ao amigo Neil ,  encerrou a festa.
Ele se foi, voltou para a Austrália, porém mora até hoje em meu coração e no de cada uma daquelas crianças.
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E assim vamos encerrando por hoje. Mas eu voltarei, meus amigos. Com certeza!

Leninha Brandão



quarta-feira, novembro 08, 2017

Memórias de uma senhorinha
Voltando para casa



Enquanto o carro percorria a estrada, pneus rolando no saibro com o barulho característico, os pensamentos de nossa senhorinha ainda estavam estacionados naquela casa e nas impressões que a mesma lhe causara.
 E se perguntava, enquanto a mão alisava a caixa já deteriorada pela ação do 
tempo ( é lógico que a nossa curiosa senhorinha a havia trazido) , quais os segredos se esconderiam naquelas fotos e naquelas cartas.E sua fértil imaginação já passeava por outra era, outros sonhos e novas aventuras.


Porém a vida real a solicitava e vamos deixar que ela aterrisse na sua ,enquanto o carro estaciona na garagem e começam a retirar a bagagem do mesmo.Da garagem se entrava diretamente na casa e os amigos pediam que fizesse um café...era a realidade a chamar por ela da maneira mais prosaica possível. Os sonhos ficarão para outro dia...o domingo terminara e outra semana começaria, com suas alegrias, sobressaltos e correria.
A escola trouxera para ela uma riqueza imensa...alunos que a faziam pesquisar sobre novos assuntos e um novo sonho: voltar a estudar para prestar vestibular e realizar um antigo desejo, o de cursar a faculdade de Pedagogia. Muitos anos a separavam de seu Curso Normal e deveria se esforçar muito para conseguir o objetivo.Ademais , a faculdade era na vizinha cidade de Barbacena...próxima , porém , de difícil acesso já que ainda era uma estrada de "chão" que fazia a ligação entre as duas cidades. Quando chovia a dificuldade aumentava e muitas vezes ficavam "ilhados", sem a menor chance de locomoção.
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Em uma outra ocasião, nossa senhorinha retomará a narrativa e investigará o conteúdo da misteriosa caixa.Por enquanto o dever a chama e ela não costuma se furtar a ele. Ama as histórias antigas,perde-se nas transparências dos tules e das organzas e tenta adivinhar o que as cortinas esvoaçantes ocultam...em uma tarde de devaneios voltará à caixa e seu conteúdo.

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E a segunda feira chegou e ,com ela, a rotina de estudos e planos de aula, as tardes com os amigos que passavam para um dedo de prosa e acabavam servindo de cobaias para os seus mirabolantes planos de aula. Suas aulas eram como um programa de TV infantil, sempre trazendo novidades. A falta de material era compensada pela criatividade e pelo aproveitamento de materiais que sobravam e seriam jogados ao lixo...caixas de papelão, garrafas pet, embalagens de ovos e tantos outros que aparecessem.


Mas um fato novo aconteceu e veio transformar tudo isto.A irmã e o cunhado vieram visitá-la trazendo com eles um aluno a quem o cunhado dava aulas de Português. Era australiano e era  cônsul no Consulado em Brasília...muito atento aos problemas brasileiros, principalmente os educacionais, manifestou o desejo de conhecer a escola e os seus alunos.Ficou chocado com o que viu...alunos em sua maioria calçados com velhas sandálias de borracha, roupinhas limpas porém muito surradas, sem uniforme e sem identidade. Eram crianças desprovidas de alegria e somente quando a nossa senhorinha os conduzia através do mundo da fantasia deixavam entrever um sorriso...

O amigo ( Neil era o seu nome),após a visita à escola, manifestou o desejo de ajudar já que seu consulado dispunha de uma verba exatamente para este fim. Pediu à nossa senhorinha que providenciasse uma lista completa de todo o material necessário para as suas aulas e também material de higiene para as crianças, uma eletrolinha e discos (LPs) para o ensino de ritmos (muito necessário para alunos especiais), um armário de aço para organizar o material e sapatos e uniformes para todos. Uma fada madrinha não teria feito melhor...



Nossa amiguinha não cabia em si de contentamento quando foi informar à sua querida Diretora o sopro divino que havia se manifestado em forma de um australiano brincalhão e gentil ...um anjo de bondade e generosidade.
Não devo me alongar mais. Vamos deixar a nossa senhorinha imaginando e dando rédeas à imaginação.

Eu voltarei...aguardem!!!



Leninha Brandão















quinta-feira, novembro 02, 2017

Memórias de uma senhorinha


A casa da Baronesa e seus mistérios

Enquanto os amigos preparavam o derradeiro lanche antes de partirem, nossa senhorinha se encostou à balaustrada da antiga sacada e, romântica que era, fechou os olhos e se pôs a imaginar... em seus pensamentos vislumbrava a casa imaculadamente branca, com janelas azuis e muitas flores. Trepadeiras cingiam o portão de grades finamente trabalhadas... bouganvilles,  madressilvas e rosas destacavam-se, misturando os aromas e colorindo as paredes brancas. Nos beirais 
rendados, colibris,  pintassilgos e rouxinóis soltavam os seus doces trinados, enquanto celeremente, preparavam os ninhos que receberiam os primeiros filhotes. Uma escada de degraus de mármore esverdeado recebia e acolhia os visitantes... uma bela porta trabalhada se abria para uma saleta encantadora onde se destacava um belo lustre de cristal. Cortinas de organza asseguravam  o aconchego e uma bruxuleante luz reberverava sobre os copos coloridos pousados, elegantemente,  sobre uma mesinha de mogno.
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Havia observado na chegada, uma caixa de latão que a ação do tempo não destruíra...voltou então à realidade e se pôs a procurar a tal caixa. Não precisou procurar muito...em um dos cômodos a encontrou e , disposta a satisfazer a sua já conhecida curiosidade, tirou da  bolsa um chaveiro em formato de abridor,companheiro fiel dos seus passeios.Munida desta ferramenta forçou um pouco a velha tampa da caixa e com facilidade conseguiu abri-la.Fotos e cartas a surpreenderam e, entre elas, a de uma jovem senhora de cabelos negros, caprichosamente trançados e presos com um belo laço de fita, lembrando-lhe a sua tia tão querida e saudosa.E, para seu total espanto, a foto fora tirada ao lado da mesinha de mogno onde,
surpreendentemente,sobre uma bandeja espelhada
se alinhavam os copos coloridos que imaginara.
Sonho? Ilusão? Jamais saberia a resposta...

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" O que os objetos são, em si mesmos,fora da maneira como nossa sensibilidade os recebe,permanece totalmente desconhecido para nós. Não conhecemos coisa alguma a não ser o nosso modo de perceber tais objetos- um modo que nos é peculiar- não necessariamente compartilhado por todos os seres..."
 Kant
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Saiu de suas elucubrações e voltou à realidade, com as vozes dos amigos a chamá-la.Com ela seguiriam as lembranças daquele dia tão especial e, a diáfana cortina que separa a ilusão da realidade, continuaria em seus pensamentos.


Leninha Brandão



Amigos queridos,eu vou, mas voltarei...aguardem!!!






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Memórias de  UMA SENHORINHA Nossa senhorinha , de volta á casa, após as cansativas negociações em Belo Horizonte, se refugia em seus ...

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