SONHOS E ENCANTOS

SONHOS E ENCANTOS

quinta-feira, abril 02, 2020



Memórias de Menina

....vamos encontrar a nossa menina às vésperas de completar os seus quinze anos,sem valsa,sem baile,sem festas...
E ela sonhara muito com aquele dia,com a magia dos quinze anos,com um baile de debutantes,como via nos filmes e em seus livros românticos de M.Delly e Coleção Rosa,com belo vestido de tule ou organdi a voltear em um salão enfeitado de flores,rodeada por suas melhores amigas,de preferência no Muriaé Tênis Clube...era um sonho antigo,coisa de menina moça...ainda não havia bailes assim em sua cidade e mesmo que os houvesse o pai jamais a deixaria participar ... a revista O Cruzeiro trazia fotos e reportagens sobre estes bailes,daí o seu sonho..


História dos bailes de Debutantes

Tradicionalmente esta palavra é usada para representar a adolescente que está completando 15 anos de idade. Debutante é uma palavra derivada do francês (débutante), que traduzida significa  iniciante.Debut:estréia.
Um ritual de passagem
Baile de debutantes é considerado uma espécie de ritual de passagem da infância para vida adulta de uma adolescente, onde os pais apresentavam sua princesa à sociedade começando assim uma nova fase em sua vida. Antigamente, era nesta data, que a jovem adolescente tinha permissão de seus pais para usar roupas mais adultas, freqüentar reuniões sociais e namorar.  Ou seja, literalmente era uma data marcada para a menina se tornar definitivamente uma mulher. Agora dá pra imaginar como a data era tão esperada e almejada pelas jovens da época?



Namorar era comum aos treze anos e nossa menina era bem precoce em tudo e neste ponto também.Após o primeiro namoro,com o irmão da amiga,encantou-se com um rapaz alto,moreno e de cabelos negros como o azeviche...olhos profundos e também negros,ombros largos e voz doce e sedutora...morava em um sítio,numa aldeia próxima a sua cidade.Todos os dias vinha à cidade,em uma charrete puxada por um lindo cavalo branco e ela o via como um príncipe...faltava-lhe o traquejo de príncipe,mas ela não percebia...o que ele não possuía ela enxergava com seus olhos de menina romântica e sonhadora...imaginava um romance como aqueles que lia,um dia ele a levaria em sua garupa e seriam felizes para sempre.Aparências a enganar,a seduzir uma menina que a viver de sonhos,tecia um futuro róseo e delicado,escrevia flores em um jardim deserto,cultivava rosas e não adivinhava os espinhos...
          E o sonho se desfez um dia,o príncipe despiu as roupagens do encanto e as sedas e linhos desapareceram,dando lugar a um rufião,cínico e desprovido daquela ternura,imaginada por ela,movida pelos seus contos de fada e seu desejo infantil de um colo há muito perdido.



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''O pior é se a aparência é de tal forma convincente, que nos embala nos atributos de que diz ser feita e ficamos cegos perante as certezas que nos quer impingir...
...Assim, será melhor ouvir o som de um tambor menos estrondoso...
Quanto maior o tambor, mais estridente é o som e mais enganoso se torna!
...E se as aparências não são, porventura senão outra espécie de vento, prefiro este último às aparências. Este é menos hipócrita e defendo-me da ventania conforme a sua intensidade...''
Manuela Barroso

"A verdade existe. A mentira é que tem que ser inventada"-Marie Curie



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                  E dezembro chegou,trazendo as chuvas e os dias quentes,as mangas e as romãs,o alvoroço dos últimos dias de aula,as despedidas das colegas e os cadernos de recordações...e o aniversário de quinze anos,tão esperado...as  amigas se reuniram em sua casa,a mãe fez um bolo e o vestido de organdi branco com pala de tule rodeada de renda guipure fez sua estréia...o sorriso nos olhos,a alegria na voz, como se debutante ela fosse...assim se sentia.

        Fim de ano,fim de ciclo,fim da meninice...


Julinho aos seis meses
                   Natal,alegria,Missa do galo,brincadeiras na calçada,vozes de crianças e de adultos,expectativas...janeiro se aproximava e a data do nascimento de mais uma criança,também.A mãe estava nos últimos dias de uma gravidez problemática...todos estavam apreensivos e durante toda a primeira quinzena aguardavam o que só foi acontecer na segunda quinzena,dia 25 de janeiro,dia de São Paulo,na cidade de São Paulo do Muriaé...às nove da manhã,quando todos se vestiam para a Missa,a mãe começou a se sentir mal , foram todos para o hospital e lá nasceu o irmão,que todos supuseram fosse se chamar Paulo,mas que, por motivo de uma promessa da mãe ,recebeu o nome de Julio Maria,em homenagem ao padre de quem ela era devota.


 Eu vou,mas voltarei....bjssssssss.

segunda-feira, março 30, 2020

Minhas memórias de menina

Minha irmã TÊ



Para falarmos da irmã,teremos que fazer uma pequena visita ao passado,à casa dos avós e à meninice de nossa menina.





Ainda em Manhumirim(o trem não fazia parte de suas vidas),a nossa menina de cachos,com cinco anos,foi agraciada com um presente de Deus e de seus pais:uma irmãzinha,linda e meiga,a quem foi dado o nome de Teresinha Maria,em homenagem à santinha de devoção da mãe.,que fazia parte da irmandade de Sta Teresinha do Menino Jesus.E a mãe,piedosa,contava-lhes a história da santinha e elas se emocionavam com a beleza desta e os sacrifícios a que se submetia.                                            


O nascimento da irmã foi uma alegria para nossa menina dos cachos.Só lamentava o tamanho da irmã...como brincar com ela,queria tanto uma companhia...

......mas gostava de exibí-la às visitas,como se fora uma boneca,um novo e precioso brinquedo...
       Era um encanto de criança,sorria para todos e dificilmente chorava...rostinho redondo,narizinho arrebitado e cachinhos castanhos.Com todos estes atributos a todos conquistava e nossa menina de negros cachos,alegre,porém geniosa,sentiu-se um pouco preterida,principalmente no carinho do pai,a quem muito amava e de quem sentia um enorme ciume.
Por sua natureza e seus efeitos, o ciúme se aproxima da inveja. Porém, entre ciúme e inveja permanecem algumas diferenças. Na inveja, sentimos que outros possuem um bem que desejamos para nós, enquanto no ciúme  entendemos um bem que julgamos nosso e que não desejamos ver partilhado com outrem. (Pierre Charon)

Porém o tempo passou,célere e absoluto e vamos encontrá-las,já maiores ,em Muriaé,estudando no mesmo colégio e se sentindo mais próximas,apesar da diferença de idade que as separava...a irmã era tímida e gostava de ficar em casa,brincando com suas bonecas e suas mobilinhas de casinha.Uma coisa possuíam em comum:ambas gostavam
de ler e de estudar (a irmã, mais que ela ,estudava muito),de escrever,de música e de cinema.Aos domingos,após o almoço,a matinê era sagrada.Alguns filmes de que gostaram muito:
-Cantando na chuva
-As neves do Kilimanjaro
-Luzes da Ribalta
-Ivanhoé,o vingador do rei
-A princesa e o plebeu 
-A um passo da eternidade
-Lili
E vários outros,naquele cinema de interior,as faziam vibrar e sonhar com um mundo distante e iluminado,com seus astros e estrelas inatingíveis.
E sonhavam muito as meninas daquela época...mergulhavam nos livros de M.Delly e viam a vida com óculos cor de rosa...príncipes encantados e galãs de Hollywood,Bonequinhas de Luxo e Noviças Rebeldes,alimentavam seus sonhos e sua imaginação...com suas saias rodadas rodopiavam em grandes e majestosos salões... suas sandalinhas de saltinho dois e meio as conduziam a um mundo ideal,utópico talvez,mas para elas,as fadas e princesas de outrora,legítimo e realizável.
Quando foi que o sonho acabou?


 

Biblioteca das Moças foi uma coleção de romances publicada pela Companhia Editora Nacional, no Brasil, entre 1920 e 1960, especializada em literatura para jovens mulheres. A coleção era composta por cerca de 180 volumes, compreendendo romances de vários autores, a grande maioria assinada por M. Delly. Publicados entre 1920 e 1960 pela Companhia Editora Nacional, de São Paulo, com a reedição de alguns exemplares nos anos 80. Os romances geralmente eram ambientados na França e possuíam enredos com estrutura bem definida[1]: o herói nobre e rico e a heroína plebéia e pobre, perfazendo uma trama complexa que finalizava com o casamento feliz, tal qual nos contos de fada. O casamento era apresentado como a redenção da mulher, e todos os romances terminavam com o encontro do herói com a "mocinha".




          E as duas irmãs,um belo dia,receberam a notícia:um novo bebê estava a caminho,e a mãe,que já não era tão nova,estava a inspirar cuidados.Uniram-se mais ainda,uma com quinze,a outra com dez anos,em uma tarefa:cuidar da casa,não deixando que a mãe se sobrecarregasse .E foi a avó,a encarregada de ensinar às duas as lidas da casa,varrer,encerar,lavar a louça e as PANELAS!!!Ai, que esta era a pior parte, mas onde encontravam uma forma de brincar(já haviam lido Pollyana e praticavam o "jogo do contente")...tinham que buscar cinza de arroz em um grande armazém e as pilhas de cinza (altíssimas e perigosas,pois havia brasa embaixo) eram ótimas para se escorregar,mornas e macias.Deus as protegia e nunca se queimaram.
Todas as noites tomavam guaraná e dividiam a garrafa irmãmente,colocando-a contra a luz para não errarem.Elas se amavam,muito,mas havia também momentos de briga,que a mãe resolvia,ternamente, na base do beliscão e do castigo.
      E nas férias iam para a praia,ou para Fervedouro,uma cidadezinha pequena onde havia um hotel com uma piscina de água mineral,corrente,na qual a irmã aprendeu rapidamente a nadar...e ela,com seu pavor à água,nem entrava. 
FERVEDOURO_MINAS GERAIS-Laudemar Martins Fonseca


 E a nossa menina,na companhia de sua irmã,passava as férias lendo e fazendo enormes caminhadas,neste lugar de clima privilegiado e de águas minerais saudáveis e curativas.E foi neste local,numa bela tarde,em que se deliciavam com o canto dos pássaros e viam o dia correr preguiçoso,que um pernilongo a picou na perna e deixou-a imobilizada por vários dias...era alérgica e ninguém disto suspeitava...sua perna inchou e se cobriu de feridas que escorriam e se propagavam.Havia um médico hospedado no hotel e,consultado,decretou:-Vamos ter que amputar esta perna.Mas  o pai não aceitou esta sentença e levou-a para Carangola,onde moravam os avós e um primo médico...ainda bem que o pai não aceitou a primeira opinião.A perna foi devidamente tratada e curada pelo primo.


Novamente interromperei o fluxo da narrativa.Voltarei daqui a uma semana...aguardem.

quinta-feira, março 26, 2020

Menino Passarinho


De volta ao meu sótão, premida pela necessidade de isolamento , devido à pandemia do coronavírus que está aterrorizando o nosso planeta Terra.

Hoje acordei dentro de meu sonho de menina: um quarto em um sótão de onde pudesse ter a visão do horizonte,montanhas azuis recortadas ao longe e um espaço para sonhar os meus sonhos,viver minhas lembranças, ouvir o chamado de

um tempo, não melhor, mas de uma intensidade diferente.
      Hoje vislumbro, nesta fresta aberta pelo sonho,uma menina/adolescente sonhadora e romântica,ingênua e feliz,apaixonada pela vida e pela natureza,pelos dias ensolarados e pelas tardes amenas,pelos sons externos e internos,que a conduziam em um galope desenfreado,da mais completa alegria ao mais profundo ensimesmamento(citando Luna),mas sentindo sempre que "é melhor ser alegre que ser triste,alegria é a melhor coisa que existe.....".
    Voltando ao sotão,razão de toda esta divagação, digressão, meditação, mudei-me para ele e estou, assim, em estado de graça(só não digo que já posso morrer porque tenho muito amor à vida e minha avó me ensinou que os Anjos dizem Amém sempre e se deve ter cuidado com o que se diz), em uma alegre paz e, ouvindo todos os passarinhos verdes e de todas as outras cores ,maritacas desnorteadas, canários cantantes, sabiás laranjeira, azulões e vários outros, nesta manhã, tão bonita manhã de primavera, no outono de minha existência.
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E me vem à memoria uma melodia, perfeitamente condizente com este meu espírito de moradora de um sótão: MENINO PASSARINHO - PAZ DO MEU AMOR,de Luiz Vieira e na voz INESQUECÍVEL de JESSÉ. 

quarta-feira, março 25, 2020

SONHOS E ENCANTOS

terça-feira, abril 03, 2012


Relembrando...

MINHAS MEMÓRIAS DE MENINA Saudades







Saudade da infância,das brincadeiras de chicotinho queimado ,passar anel...

Mamãe,  posso ir?
e da mãe dizendo:-Pergunte ao seu pai...ele, por sua vez,respondia o mesmo...
Saudade do quintal sombreado pelas árvores,das flores coloridas e do ruído das cigarras,cantando até exalar o último suspiro...

Saudade das amigas:Lucina, Orcélia, Wilma, Francisca, Sydnéia, Iris, Heloísa, do Carmo, Ozília e Ondina... das brincadeiras após a Missa das nove,dos risos e do ciúme quando a amiga do Rio chegava,Margarida era o seu nome...


     " A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
      age como um deus doente,mas como um deus.
      PORQUE EMBORA AFIRME QUE EXISTE O QUE NÃO EXISTE
      Sabe como é que as coisas existem,que é existindo,
       Sabe que existir existe e não se explica
       Sabe que não há razão nenhuma para nada existir
       Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer."
                                                               Fernando Pessoa

 
        Chega a doçura e o desassossego que a ela se contrapõe,
o fervor das noites de insônia e a placidez das tardes de maio,
a rebeldia dos pensamentos tresloucados e o encantamento das manhãs envoltas em gaze e organdi...
chega a adolescência.
Dias desperdiçados(ou aproveitados?) em sonhos lilases, azuis e róseos...
dias de extremo sorrir,dias de intenso chorar...
embates se travam e rebelam-se todos os quereres...
cortinas se abrem e se fecham em uma sucessão de estréias e premiéres.
Uma nova peça, com novos atores, em uma avalanche de aplausos e de vaias.

....................         ........      ...........E a menina,que foi de cachos,que foi de tranças e hoje tem seus cabelos curtos e rebeldes,enfrenta o mundo dos quase adultos,com esperanças e medos,interrogações e certezas,numa (i)responsabilidade tão rica e tão destemida que assusta.
        O primeiro namorado(notem que não foi O PRIMEIRO AMOR),era irmão de uma amiga muito querida e as duas planejavam um futuro feliz (para elas), morando juntas em uma casa onde não haveria panelas nem fogão, a comida viria em "marmitas" e os talheres seriam descartáveis...os pratos também.Mas ele, o principal interessado, era apenas um figurante...viveriam escrevendo e lendo, em um mundo idealizado por elas. Conclusão: ele se cansou do papel de namorado de mentira e se despediu,
afirmando que ela era imatura demais para namorar.
         Mais tarde  histórias de amor aconteceriam,mas isto é uma  outra fase ...aguardem,eu voltarei.


quinta-feira, março 12, 2020

MINHAS MEMÓRIAS DE MENINA

E nossa menina está radiante de felicidade,morando na Rua São Pedro,perto de várias coleguinhas de sala de aula,convivendo com elas e suas famílias,conhecendo várias outras pessoas,alegres companhias para os folguedos e brincadeiras de fim de tarde,após o banho e o jantar.E eram muitas amigas a se reunir para as rodas enormes,para o pique de esconder,as queimadas,chicotinho queimado,passar anel e muitas outras que não me vem à memória...e às nove horas as mães começavam a chamar e todas, obedientemente,se recolhiam às suas casas,sem retrucar e sem reclamar.Ainda não havia televisão,somente o rádio,centro das atrações,com suas novelas e séries:

 Em 12 de julho de 1941, às 10h30, teve início ‘Em busca da felicidade’,primeira radionovela transmitida no país, através da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. A obra mexicana foi escrita por Leandro Blanco, com adaptação de Gilberto Martins. Seus capítulos ficaram no ar por aproximadamente três anos.Após seu término, começou a cubana ‘O direito de nascer’, que foi a principal radionovela do Brasil.
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E,agora , devo lhes falar das freiras, figuras importantes na vida de nossa menina...começando pela querida Ir. Margarida, influência muito grande na vida intelectual de todas as alunas e, em especial, na vida de alguém cuja maior paixão na vida eram os livros, deixava qualquer diversão para se dedicar à leitura e sonhava em ser escritora um dia...Ir. Margarida era professora de literatura e também amava os livros. E instigava a nossa menina a escrever sempre, até mesmo para o jornalzinho do Colégio, que circulava uma vez por mês e tinha uma coluna escrita por alunas. Foi a sua estréia nas letras impressas, com uma pequena crônica " O Meu Ideal", cuja publicação lhe valeu inúmeros elogios e uma intensa alegria.
E havia a professora de francês, Ir. Virgínia, uma francesinha "mignon", proveniente de uma pequena aldeia no sul da França e que as alegrava quando simulava uma tempestade, imitando 
todos os ruídos, numa sonoplastia perfeita, enquanto gritavam os nomes e terminavam com um grande ' Arc en ciel"...infelizmente esta dádiva que existiu em suas vidas, adoeceu e foi enviada para o convento da França de onde era oriunda. Nunca mais tivemos notícias de nossa querida freirinha...em seu lugar Ir. Judith , uma medrosa freira que se deixava dominar pelas mais velhas e rabugentas e até mesmo por algumas alunas muito maldosas ( sim, meus amigos, havia bulling naquela época, só não havia o nome), que descobriram a amizade dela com um livreiro da cidade e usavam este pretexto para atormentá-la. E enquanto não a viam aos prantos, não cessavam as implicâncias.
Nesta ocasião chegou ao colégio vinda do sul do país, uma quase noviça, Ir. Christina, professora de inglês e recém saída da adolescência. Linda, meigos olhos azuis, um sorriso doce e uma voz meiga e cantante. Todas nós nos apaixonamos pelo inglês...( corria um boato que outra freira também se apaixonara, mas não era pelo inglês). E nós achávamos a história linda.
Outra professora que a encantava era a Ir. Julieta, de desenho e trabalhos manuais. Não levava muito jeito para os trabalhos manuais e , enquanto as colegas bordavam toalhas e belas colchas para o enxoval, ela só conseguiu bordar um avental. Mas no desenho se revelava...eram páginas e mais páginas de belíssimas paisagens ( e ainda ajudava as colegas).
Ir. Rita de Cássia, Ir.Nati, cujo nome era Natividade, Ir. Célia, Ir.Teresinha. E a querida Ir. Cândida, uma freira iluminada, cuja presença trazia Paz e tranquilidade.
A memória me traz a figura de cada uma delas e o papel de cada uma em determinado momento da vida.
Ir. Áurea, a professora de latim, desvendou para a nossa menina um mundo de declinações e traduções dos clássicos.
Hoje, olhando para trás, revejo e sinto saudades deste tempo de inocência e descobertas. Uma menina "vestida de azul e branco,trazendo um sorriso franco, no rostinho encantador" , como dizia a letra da música cantada por Nelson Gonçalves.

E aqui fica uma lágrima enquanto a lembrança passeia pelos bordados dos caminhos traçados e pela organza dos sonhos revividos...

Com um beijo eu me despeço. Mas voltarei, com certeza!






segunda-feira, março 09, 2020

12

MEMÓRIAS DE MENINA











>Deixamos a nossa menina de tranças em seu colégio e com grandes amizades já conquistadas...
Sua vida corria mansa e sem grandes sobressaltos,aulas pela manhã,almoço,tarefas da escola e compras para a mãe,após o almoço.De tardinha o lazer na praça,o jogo,as rodas,a brincadeira de passar anel,as histórias que gostava de contar e as amigas  de escutar...
        A amiga Lucina era a mais querida e juntas planejavam conquistar o mundo e enquanto não o faziam,tentavam pequenas aventuras dmenor porte...de uma feita,após a aula de piano da amiga se uniram a outras três para pular um muro e pegar laranjas no quintal de outra colega(na inocência,achavam que não era errado,afinal eram colegas).Não contavam com a presença da mãe da amiga no quintal e esta ao vê-las,começou a gritar::socorro,socorro!!!Subiram correndo o muro e correndo fugiram,mas Lucina,na pressa,esqueceu suas partituras de piano debaixo da laranjeira...que vergonha,no dia seguinte,na escola, a amiga se aproxima,devolve as partituras e diz que a mãe havia mandado laranjas para todas,não precisavam pular o muro para consegui-las...
           Havia tambem a ponte do Dr Brum,uma aventura emocionante para todas,menos para ela...a nossa menina não tinha coragem de atravessar a ponte que não tinha guarda mão e balançava sobre o rio,atemorizando-a.As outras meninas enfrentavam a ponte galhardamente,mas ela nunca conseguiu esta proeza. 
          Mas a praça,com seu belo relógio,era ainda o local preferido ,ali se reuniam para combinar passeios,para as conversas da tarde e para os primeiros flertes,assunto ainda proibido,mas a curiosidade já começava a despertar.
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         Novamente o pai chega em casa com uma novidade: estava comprando uma casa, na rua São Pedro, lugar privilegiado da cidade, perto do centro ,arborizada e com uma pracinha linda bem próxima à casa.Que felicidade tomou conta daquela família! E foram todos juntos ao encontro do sonho, há muito acalentado pela mãe. Foi a alegria de todos, uma casa de dois pavimentos ,com uma escada lateral, conduzindo a uma simpática varanda, ideal para as plantas, samambaias, antúrios, avencas e tinhorões de todas as cores.

 Um novo capitulo está prestes a começar na vida de nossa menina,uma nova rua,novas amizades,novos sonhos a serem acalentados...e a pracinha era linda,com caramanchão,canteiros com flores e uma promessa de dias muito felizes.Ah,e o jornaleiro morava perto e era um italiano de sorriso bondoso,o Sr Emilio Mannarino,cujas filhas eram suas colegas:Ozilia e Atia,lindas e alegres,oriundas de uma familia feliz e enorme na quantidade de pessoas  e na generosidade dos corações.
 Grandes coisas ainda acontecerão na vida de nossa menina,ainda de tranças e laço de fita nos cabelos.Aguardem.Voltarei daqui a 7 dias.
     Bjssssssss,
              Leninha

domingo, março 01, 2020

MURIAÉ

RETOMANDO AS MEMÓRIAS DE CRIANÇA

(Devo me desculpar por este retorno, pois uma parte importante desta história ficou perdida e hoje a encontrei)







Construído em 1886, o ramal de Muriaé pertencia à antiga Estrada de Ferro Leopoldina. Ligava Muriaé a Patrocínio do Muriaé, passando por Ivaí. Em Patrocínio, fazia-se a junção com a linha principal, onde passageiros e cargas seguiam para a cidade do Rio de Janeiro. Trouxe para a cidade grande progresso. Em 1898, a companhia foi incorporada por ingleses e passou a se chamar “The Leopoldina Railway Company”. Em meados do século XX, com a chegada das rodovias, tornou-se deficitária e foi desativada.
E foi nesta estação que desembarcou a nossa menina,agora de longas tranças e sorriso nos lábios,imaginando as aventuras que a aguardavam nesta nova e bela cidade.Foram morar em um hotel,enquanto procuravam uma casa de acordo com as especificações e preferências da mãe:perto do centro,de uma igreja e de uma escola.Estas preferências diminuíam as chances de se mudarem em um tempo curto e traziam alegria à nossa menina,que adorava o ambiente do hotel,com pessoas indo e vindo de toda parte do país...era curiosa e estava sempre conversando com todos,querendo saber dos hábitos e costumes de cada região.
        Fez amizade com os netos da dona do hotel e se encantava com a vida deles,com chance de conhecer tantas pessoas,de viajar por estas vidas tão ricas...e eles riam e achavam que ela era uma menina diferente,com pensamentos estranhos.

No blog de Zulnara Pires,que conheci na infância,encontrei este importante acervo ,que veio enriquecer minha narrativa:"...Sendo uma verdade que "o tempo não traz de volta o que o tempo leva", por vezes é bom renovar o passado. Percorrer locais em que habitamos e que a hora tardia esvaziou da gente e dos sons que o habitam. Entrar neles lentamente, quase em reverência. Pisar o chão devagarinho, para não acordar o presente. Sorrir ao vazio em conforto melancólico. E apesar de tudo o que o tempo ali mudou, saber ainda refazer cada passo, reconhecer a pedra torta, a árvore que falta, saber ainda das alegrias, do lugar, dos medos, escutar as gargalhadas, os passos, o roçar das malas e dos casacos como se naquele momento conosco se cruzassem invisíveis observadores. Buscamos nesta viagem temporal não os lugares, mas a nós mesmos. Revisitamos quem fomos, relembramos um certo tipo de inocência, de otimismo e de limpidez no olhar e, no final sorrimos a quem fomos com a melancolia, a maturidade e a sabedoria do presente...”                                                                                                      Ate outro dia...retornarei,podem estar certos...  E antes que a melancolia me domine,pisarei o chão devagarinho e me recolherei deixando para você,meu amigo leitor, a limpidez do olhar e a inocência da criança que ,dentro de mim,ainda habitam.

Caetano Veloso - Terra

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