SONHOS E ENCANTOS

SONHOS E ENCANTOS

domingo, fevereiro 07, 2021

 

Memórias de uma Senhorinha







Passa o tempo, implacável e frenético, passam as estações e nossa senhorinha, imersa em sua aventura particular de criar os filhos e encaminhar os filhos do coração, nem percebe a mudança das estações...

 E em sua charrete ela segue, sufocando a saudade que teima em beliscar o seu coração...sonha, ao balançar da marcha melancólica de seu "Paraiso", com os dias vindouros, o abraço familiar, o aconchego dos pais e dos irmãos...envolve, ao sacudir do trote do cavalinho, em organzas e cambraias, a ternura e o delicioso afago do ambiente familiar...vibra, a cada relinchar e o pôe a correr, pensamentos céleres a percorrer o seu ser, trilhando uma estrada que a levará ao destino desejado.

E, como dizia Quintana:

O Tempo 
A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. 
Quando se vê, já são seis horas! 
Quando de vê, já é sexta-feira! 
Quando se vê, já é natal... 
Quando se vê, já terminou o ano... 

E chegaram as férias...arrumações de malas, aflições, e o dia não chega, meu Deus, esperar com calma, não adianta ficar ansiosa, não vai fazer o tempo andar...e os pensamentos se sucediam com a rapidez de um trem bala.

Ela, sempre calma e tranquila, sentia como se um vulcão entrasse em erupção em sua mente.

E, enfim, o pai telefonava avisando que a iria buscar para o seu aniversário, 13 de dezembro.

Prazer muito além do sobreviver...de viver com. Alegria muito além do apenas sorriso...riso em flor, em cadência, em Allegro ou em Andante Cantabile.

Era o ano de 1973...

  

O que aconteceu em 1973?


O ano de 1973 no Brasil estava sob o governo Médice, no auge do regime militar. O mundo estava em expansão e permitiu o aumento de investimento via endividamento externo. A moda era a calça boca de sino. A musa, Darlene Glória. O ídolo esportivo, Emerson Fittipaldi. Na vitrola, rodavam os Secos & Molhados.
Foi o grande estouro do ano. Os Secos & Molhados eram liderados pelo inquieto Ney Matogrosso. Com letras descomplicadas e muitas músicas feitas a partir de poemas de autores brasileiros, seu primeiro disco chegou rapidamente ao topo das paradas de sucesso e vendeu mais de 800 mil cópias no ano. Com eles, a música popular retomava as últimas consequências a antropofagia musical tropicalista. O grupo formado por Ney Matogrosso, João Ricardo e Gérson Conrad se tornaria um fenômeno em pouco mais de um ano de ida. Eles já irromperam na cena conquistando o público, rendendo a mídia e abocanhando o mercado fonográfico. Mais que um grupo, Secos & Molhados se tornou um conceito. O trio já nasceu cult e, ao mesmo tempo, super-popular. Várias faixas do disco viraram hits. Os mais poéticos embeveciam-se com “Rosa de Hiroshima”, poema de Vinícius de Moraes, os jovens se embalavam na força de “Sangue Latino”, e a garotada ia à loucura com “O Vira”.
As guitarras, a poesia, os arranjos modernos, a maquiagem, o vocal insólito e o rebolado de Ney provocaram um espanto sem precedentes. Lançado em agosto de 1973, o LP Secos & Molhados vendeu 300 mil cópias em três meses. Em um ano, chegou à marca das 800 mil, quase o dobro do campeão de vendas da época, Roberto Carlos, com a banda lotando estádios por todo o país. Em agosto de 1974, o grupo lançaria o segundo LP, simultaneamente ao anuncio da saída de Ney. A saída do vocalista foi seguida pelo violonista Gerson alegando a mesma razão, o controle dos direitos autorais e das finanças por João Ricardo, o principal compositor e que tentaria ressuscitar (sem sucesso) o grupo em 1977, 1980 e 1987. E o álbum de 1973 foi eleito um dos melhores discos da história do Brasil.
Outro emblemático disco de 1973, gravado em Londres, foi “Dark Side of the Moon”, do grupo psicodélico britânico Pink Floyd. O disco sombrio ficaria mais de 700 semanas na lista dos 200 de maior sucesso nos EUA, um recorde histórico. Escorado por músicas como “Money”, “Breathe”, “Time” e “The Great Gig in the Sky”, o álbum com a capa do prisma tornou-se um ícone da cultura pop. O conceito do disco, segundo o baixista, fundador e principal compositor do grupo, Roger Walter, gira em torno do individualismo e de como a sociedade tornou-se opressora. O disco permaneceu por 724 semanas na parada dos EUA, um recorde. Já foram vendidas mais de 30 milhões de cópias do álbum e relançado com materiais extras no 20º e 30º aniversários. Em março desde ano (2007) Walter apresentou-se na praça da Apoteose, Rio e no estádio do Morumbi, SP, tocando todas as canções de “Dark Side of the Moon”.
A importância do Pink Floyd surgiu a partir da utilização de recursos da música concreta (ruídos de portas que se abrem e fecham, de passos de pessoas, de água que escorre, etc) e eletrônico, fundidas com o estilo clássico, baladas inglesas tradicionais, blues e rock. Com ruídos inéditos, o Pink Floyd sugeria uma atmosfera de ficção científica, além de propor uma nova abertura, desde o aparecimento dos Beatles, no saturado universo da música pop. O conjunto é pioneiro no uso de laser, audiovisuais e suportes mecânicos em seus super-produzidos concertos ao vivo.
Ainda no mundo da música Raul Seixas lança seu grito de guerra no Lp “Krig-há, Bandolo” (na verdade, esse grito é dos macacos nos gibis de Tarzan que Seixas era fã), Tom Jobim com o seu “Matita Perê”, Milton Nascimento e o “Milagre dos Peixes”, o maldito Walter Franco e “Ou Não”, Paulinho da Viola com o excelente “Nervos de Aço”, Luiz Melodia e a sua “Pérola Negra”, “Tom Zé com “Todos os Olhos” e Gal Costa com “Índia”. 
No cinema os destaques do ano são O Último Tango em Paris, de Bertolucci, Gritos e Sussurros, de Bergman, e Amarcord, de Fellini (1973). Os musicais pop, rescaldo da contracultura, fazem sucesso: Godspell, a Esperança, de David Greene e Jesus Cristo Superstar, de Norman Jewson. No Brasil chega às telas Toda Nudez Será Castigada, de Arnaldo Jabor. A adaptação da peça de Nélson Rodrigues causa escândalo nos cinemas. Tem ainda obras importantes como Uirá, o Índio em Busca de Deus, de Gustavo Dahl, Os Condenados, de Zelito Viana, Sagarana, o Duelo, de Paulo Thiago. O ano marca o auge da produção pornochanchada, gênero que tem uma fórmula baseada em humor, muito sexo e que consegue ampliar o público do cinema - em dez anos, o número de espectadores no país salta de 25 milhões para 60 milhões.
Várias foram as formas de resistência que os autores críticos usaram para se contrapor à política e ideologia do regime e para fazer chegar ao público suas mensagens, driblando a tesoura e o camburão. Entrelinhas, duplos sentidos, trocadilhos, mensagens cifradas: para bom entendedor, meia palavra tinha de bastar. Foram produzidas (e proibidas) várias obras críticas que versavam sobre os problemas sociais, o sufoco e a repressão daqueles tempos. Como exemplo, peça teatral como Um Grito Parado no Ar, de Gianfrancesco Guarnieri (1973).
Lima Duarte incorporou o cangaceiro Zeca Diabo e Paulo Gracindo viveu Odorico Paraguaçu na primeira novela em cores da TV brasileira: O Bem Amado. Nas noites de domingo uma voz anunciava “olhe bem, preste atenção!. Era o Fantástico, da Rede Globo, o programa revista de entretenimento com jornalismo.

Fonte: Blog do Gutemberg 




De presente de aniversário, um exemplar do sucesso do momento:O Último Tango em Paris. A irmã lhe deu de presente e ela vibrou!
Uma festa foi organizada para comemorar os seus trinta e   seis anos...festa em que foi apresentada aos amigos da irmã, frequentadores da Igreja da Glória, onde formavam um Grupo Jovem, idealistas engajados nos ideais de uma sociedade mais justa, com igualdade social e oportunidades para todos. O regime militar os assustava, mas não os calava. Faziam parte da Pastoral da Juventude.

    A  Pastoral da Juventude é a ação dos jovens como Igreja, unidos e organizados a partir dos Grupos de Jovens. É a juventude evangelizando outros jovens em comunhão com toda a Igreja.
A PJ não é apenas uma organização ou uma estrutura como alguns ainda pensam. Na verdade, os grupos de jovens são a base desta pastoral e é no grupo e pelo grupo que a PJ acontece.
Quando o grupo busca aprofundar e viver a fé, atuar na comunidade, descobrir como transformar a realidade e, junto com os demais grupos, ser evangelizador de outros jovens, já está sendo e fazendo Pastoral da Juventude.

E a nossa senhorinha passou a frequentar a Igreja e a comparecer às reuniões, repleta a cabeça de sonhos e de ideais revolucionários.




E com este mesmo grupo de amigos, o cinema Paissandu, com seus filmes de arte...Fellini, Buñuel, Godard eram os reverenciados na época, entre outros...as peças teatrais(merecedoras de um capítulo à parte), e a praia de todos os dias...


Amigos que me lêm,  pacientemente, devo parar ou ficarão cansados. Voltarei na próxima semana.
                            Bjssssssss 

 



9 comentários:

chica disse...

Mais um capítulo muito legal dessas memórias. E foi ver rever o ano de 1973, anos em que nasceu nossa 3ª filha... Adorei! bjs, linda semana,chica

Leninha Brandão disse...

Oi amiga Chica,

Que bom saber que gostou e que lhe trouxe boas recordações. Obrigada por seu carinho de sempre!!!💕💕💕

Toninho disse...

Que maravilhosa postagem Leninha, a senhorinha nos dando uma bela retrospectiva daqueles anos plúmbeos da politica e explosão da criativa musica, como forma de expressar a preocupação com o momento. No Chile o Pinochet fazia das suas numa ditadura longa. Amei rever e relembrar estas atrações musicais, que nos embalaram nos DAs e DCEs até a década de 80, quando uma luz surgiu no fim do túnel, mas isso é coisa para a Senhorinha nos contar numa próxima partilha.
Um abração amiga.
Beijo de paz no coração.
Uma linda semana e com vacinas.

Leninha Brandão disse...

Oi amigo Toninho!
Nós que vivemos estes anos sombrios da ditadura e vimos amigos sofrendo, famílias desmoronando, bem sabemos o valor da liberdade, não é mesmo? Mas também sabemos o gosto da explosão da arte em todas as suas facetas, da criatividade de nossos artistas e do jogo de cintura dos nossos compositores, caminhando e cantando e seguindo a canção...
E a nossa senhorinha, jovem e sonhadora, participava, apenas nas férias, é verdade, das reuniões dos grupos jovens da Igreja e dos grupos musicais que se reuniam em casas de amigos para ouvir as músicas em pequenos "toca-discos", ou ao som do violão de um amigo...mas este é um assunto a ser tratado em outra postagem. Obrigada por suas palavras carinhosas, meu querido! Um beijo!

Beatriz Bragança disse...

Querida Leninha
Nunca fico cansada a ler o que escreve.
Viajo no tempo e sinto, ora uma atmosfera romântica, ora a realidade do Mundo à época. Só tenho pena de não estar por dentro de toda a produção brasileira, embora conheça muito do que fala. Vou tentar inteirar-me.
Como gostei de recordar filmes e músicos!
Obrigada por me proporcionar um bom momento, numa altura tão crucial na vida de toda a Humanidade.
Cuide bem de si.
Um beijinho
Beatriz

manuela barroso disse...

O tempo traz outros afazeres,outro ritmo de vida, outras canções para se cantar. E que de mais maravilhoso voltar ao ninho donde saimos um dia? é uma alegria fresca que nos invade parecendo que tudo volta atrás.Mas há sempre um apeadeiro diferente com novos sorrisos à chegada. E eis que de novo te rodeias de novas amizades e um pouco mais de tempo para ti, querida Leninha!
Muito a propósito a descrição de novos ritmos musicais e outros.
Um grande beijinho, minha querida!

Dalva Rodrigues disse...

Leninha, querida, que bom estar aqui novamente tendo o prazer dessa leitura tão profunda, que vem lá de dentro das memórias da senhorinha!
Que demais foram os anos 70, quantas músicas e agito político (embora não tivesse consciência política, ainda)...
Adorei, abração e bom feriado, mesmo com todas restrições!!

Roselia Bezerra disse...

Bom fim de noite de domingo, querida amiga Leninha!
Que saudade de ler suas belas e completas revelações de um tempo onde a senhorinha viveu intensamente tudo ao seu redor. Uma mulher integrada ao tempo.
Agora estou aqui, amiga:
https://flordocampo3.blogspot.com/
Vou lendo detalhes durante a semana.
Esteja bem, querida.
💐🕊️😘🙏👼

Luma Rosa disse...

Oi, Leninha!!
Como é bom relembrar fatos passados e acompanhar a história da senhorinha. Esse paralelo faz-nos reviver momentos que também nos foram ricos.
Um texto com gostinho de quero mais!! Querendo saber mais dessa senhorinha :)
Beijus,

  Memórias de uma Senhorinha Passa o tempo, implacável e frenético, passam as estações e nossa senhorinha, imersa em sua aventura particular...

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