SONHOS E ENCANTOS

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segunda-feira, dezembro 06, 2010

Conceição do Mato Dentro

Modelando angu

Cada morador de Conceição de Mato Dentro tem uma opinião sobre qual o melhor pastel de angu. A iguaria tornou-se a marca registrada da cidade, sendo encontrada em qualquer bar e restaurante. As receitas variam sutilmente entre um estabelecimento e outro: em uns, o tempero da carne leva cebolinha; no outro, a massa é um pouco mais grossa; num terceiro, há toques de pimenta. Por isso, vale a pena o viajante experimentar cada um deles para sentir as diferentes nuances de sabor. Sua opinião será mais uma na calorosa discussão dos moradores sobre o pastel de angu favorito de cada um.
Entre os moradores, no entanto, há uma certeza: Dona Mirtila foi a primeira a fazer o pastel de angu. Hoje é sua filha Lélia quem prepara a receita da mãe, mantendo vivo o conhecimento do preparo dos pastéis por mais uma geração.
A história do surgimento dos pastéis de angu em Conceição aconteceu quando a mãe de Dona Mirtila perdeu o marido, tendo que cuidar de seus oito filhos apenas na companhia de uma escrava. Três anos se passaram e a viúva acabou falecendo. A escrava ficou sozinha com as oito crianças e, não sabendo o que fazer, decidiu entregar cada um dos filhos a seus respectivos padrinhos. Como era mais apegada à Mirtila, a escrava foi viver junto dela e de seu padrinho.
Com o passar do tempo, Mirtila encontrou seu futuro marido. Mas, antes de casar, a escrava lhe ensinou uma receita: um pastel que a massa era feita de angu. Mirtila aprendeu a receita e seguiu em frente, casando tempos depois. Infelizmente, assim como sua mãe, ela ficou viúva ainda jovem, com apenas 38 anos. E também como sua mãe, teria que cuidar de um grande número de crianças: 18 filhos – dez seus e oito de criação.
A situação financeira de Mirtila logo apertou. Dos 18 filhos, nove ainda estavam na escola em época que não havia bolsas de estudo. Dona Mirtila, que trabalhava no correio e costurava para fora, entendeu que precisaria de um novo emprego. A solução encontrada estava na receita que a escrava havia lhe ensinado anos antes. Logo, começou a vender o pastel de angu no mercado municipal. A propaganda boca a boca se espalhou e, em pouco tempo, Dona Mirtila ficou conhecida na cidade. Todos queriam provar seu pastel de angu e, com isso, o sustento de seus filhos estava garantido.
Lili adorava os pastéis de angu de Dona Mirtila, mas também queria criar sua própria receita para poder vendê-los em seu bar. Assim, começou a pesquisar como iria fazê-lo ter a sua cara. Logo percebeu que o fubá usado na receita deveria ser de moinho d´água. A moagem industrial queima os grânulos do milho com o atrito, não alcançando a ideal consistência.
Já o fubá de moinho d’água, devido ao lento processo de moagem, consegue uma melhor liga ao modelar a massa em formato de pastel. Na massa de Lili, vai um pouco de polvilho e farinha de mandioca, além de caldo de carne e cheiro verde. Todo pastel deve ser aberto na mão. “Ele é feito de forma artesanal, sem sequer usar o rolo, pois este acaba deixando a massa compactada. Abrir os pastéis na mão exige eficiência e não é para qualquer um”.
Lili explica que a massa deve ser aberta ainda morna, pois somente assim consegue-se modelar em formato de pastel. Aparecida, seu braço direito, já cansou de queimar as mãos abrindo pastéis, mas hoje está acostumada. Dona Lili conclui que “depois de abrir os pastéis, há o recheio. Este precisa estar bem temperado, seja ele de carne ou de queijo”. Os pastéis de Dona Lili são encontrados em seu bar ao preço unitário de R$ 1,50.
A sogra de Lili, Dona Ia – apelido de Maria -, mora perto de seu bar. Ela aprendeu a fazer pastéis de angu com o consentimento da nora. Muitos dizem que a sogra de Lili aprendeu tão bem que seus pastéis até superam o de sua professora. Dona Ia faz os pastéis na cozinha de sua casa, somente por encomenda.
Num outro canto da cidade está o Bar do Raimundo, outro bom reduto dos pastéis de angu. “Minha fornecedora é dona Martinha, que faz pastéis há pelo menos uns dez anos”, conta o dono do bar, que os vende a R$ 1,00 nos sabores de carne e queijo. Raimundo faz questão de fritá-los na frente do freguês. “Só assim eu posso garantir que é o mais gostoso da cidade”. Acontece que Raimundo também já pensa em desenvolver a sua própria receita de pastel de angu. Com certeza, será mais um a ser considerado no meio das discussões quando surge a saudável pergunta: “e qual o melhor?”.

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