..e chegou setembro,esperado e temido porquanto seria o arauto de sua completa alegria ou de sua extrema decepção...
E nossa menina contava nos dedos os dias que faltavam para a Exposição Agro Pecuária de Muriaé,data combinada para a visita de seu "príncipe",de olhos azuis e sorriso doce,como doces também eram suas palavras.
Esperava uma carta ou um telegrama,confirmando a sua vinda,mas nada chegava...todos os dias aguardava a chegada do carteiro,que passava por sua porta e não parava.Uma carta a faria feliz...mas esta carta não chegou e seus sonhos desmoronaram como um castelo de cartas.Quieta pelos cantos da casa amargou a sua decepção.Não havia contado à mãe e não teve coragem de fazê-lo agora...a razão de sua tristeza,o seu desencanto,o sonho perdido ficaram guardados só para ela.
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No Colégio ensaiavam o Hino da cidade,que seria cantado em sete de setembro e ela se entusiasmava cantando e orgulhosa por saber que o mesmo havia sido composto por uma freira de sua amada escola.
Hino de MuriaéLetra: Cândida Theodora Cerqueira
Música: Lourdes Santelli
Florescendo num trecho risonho,
deste grande e lindo país,
Muriaé tu nascestes do sonho,
de um povo heróico e feliz.
Muriaé, terra querida,
por um sol todo ouro banhada,
por um sol todo ouro aquecida,
Serás sempre por nós venerada.
Em São Paulo, tiveste Padroeiro,
que tua sorte, fiel governou,
transformando teu solo em viveiro,
onde sempre a virtude medrou.
Muriaé, pelo bem e o dever,
o teu povo labuta a sorrir,
pra gozar do perene prazer,
de gloriosa vitória a luzir.
Continua a subir sempre mais,
pela a senda do bem e da glória,
escrevendo com áureos sinais,
frases lindas em nossa história.
Salve, terra de Minas heróica,
de imortal e feliz tradição,
fulgirás na flâmula histórica,
através de um rico brasão.
A autora do hino era sua querida professôra,Irmã Cândida ,doce e meiga freirinha,cujos olhos sorriam e lhe iluminavam a fisionomia como se mil estrelas sorrissem.
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E a data da Exposição se aproximava e os preparativos para a festa eram o assunto das meninas...os vestidos para os bailes,os animados passeios que fariam,os namorados,e ela se calava quando este era o assunto...mas uma das amigas,a sua querida Lucina,a quem ela fazia as mais intimas confidências,lhe dizia que não deveria se amofinar por alguém que não a merecia,um amor se esquece com outro e mais todas estas frases feitas que se costuma dizer nestes casos...então ela se convenceu e resolveu que iria a todas as festas.(não pensem que foi fácil,mas ela era teimosa,lembram-se?).
Costureiras,preparem-se,pensou e no dia seguinte já estava na casa de Lacyr,sua amada costureira,a encomendar vestidos para a festa.Ainda não se usava calça jeans,traje mais apropriado para uma Exposição deste teor,as meninas iam de vestidos rodados e sapatinhos de salto,afundavam os delicados calçados no saibro,mas não perdiam a pose...e eram elegantes,magras e lindas.
A entrada da Exposição em uma foto da época,dá para avaliarem como era o local:

E no recinto do evento o que encontravam:
E no dia da abertura,vamos encontrá-las todas,após a aula,ainda de uniforme,o que era rigorosamente proibido pelas freiras,a passear pelo recinto,percorrendo as baias dos cavalos,admirando as vacas holandesas como se grandes entendidas fossem deste assunto.
E à noite,com seus lindos vestidos,seus batons cor de sangue,suas unhas pintadas de vermelho,o parque de exposição era o palco de seus sonhos...e o sonho comum a todas elas era encontrar um John Wayne ou um Clark Gable,de preferência em um belo cavalo branco...
E foi neste local,em uma noite estrelada que ela conheceu o seu futuro marido...foi uma pirraça,um acinte ao tão esperado dono dos olhos azuis?Foi esta a intenção,mas o namorado (não se "ficava"simplesmente,quando uma menina e um rapaz se encontravam e ele a levava em casa,já era namoro),era tão gentil,tão educado,que ela esqueceu rapidamente o seu "príncipe".
Ele era fazendeiro e pertencia a uma tradicional família da cidade.Usava ternos brancos de linho e sapatos irrepreensívelmente lustrosos.Alto,com um bigode à Clark Gable,tratava-a como uma princesa e referia-se a seus pais como "o senhor seu pai e a senhora sua Mãe",como só se via nos romances de Machado de Assis.E a menina se encantou pelo rapaz mais velho,que dirigia seu próprio carro e deixou que ele passasse a dirigir o seu destino.
Serão felizes?O tempo o dirá.
Lembrem-se que ela era uma romântica incorrigível,como,aliás, quase todas as meninas de sua geração ...
Esta era a família de sua futura sogra.
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Eu vou,mas voltarei...
na próxima semana.
























