SONHOS E ENCANTOS

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quarta-feira, abril 29, 2020

Sonho de Cinderela/Minhas Memórias de Menina



MEMÓRIAS DE UMA SENHORINHA




E nossa menina está prestes a iniciar um novo ciclo em sua vida, mas antes disto ainda vai preparar o seu último Natal de solteira... inquieta-se com os preparativos, perde-se em pensamentos, e, ao mesmo tempo, cuida para que tudo saia a contento: o presépio, decorado com esmero... papel amassado e coberto com purpurina, imitando pedras; manjedoura coberta com palha, espelho imitando um lago (não sei o porquê deste lago perto do presépio) um burrinho e uma vaquinha e as imagens de Nossa Senhora e São José ladeando o Menino Jesus... todos os anos era ela a encarregada deste ritual e o cumpria com alegria... este ano, como seria o último, dedicava-se mais, mas havia uma certa melancolia que teimava em aparecer, perturbando-a.
 Cuidou para que tudo ficasse impecável e que sua tristeza (porque, meu Deus!) não interferisse em sua "criação".
E o Natal chegou! Seu presépio ficou lindo,todos elogiaram e ela esqueceu aqueles momentos de inquietação...
Foram à Missa do Galo, trocaram presentes e a alegria do irmão, que ainda acreditava em Papai Noel, a todos contagiou... mas, nos olhos do pai ela sentia uma nuvem a pairar... eram muito ligados os dois, apesar de não terem o hábito de falar de seu amor... mas este se manifestava em todos os gestos e atitudes, no modo com que ele segurava sua mão, ao passearem pela rua, no seu abraço protetor ao saírem, no seu modo carinhoso de colocar a lí ngua na ponta do nariz (ninguém consegue isto, viu?) no jeito de estufar a bochecha pedindo-lhe beijo... estes eram os sinais e os ritos de um grande e terno amor.

Após o Natal e o Ano Novo (não tinham o hábito de festejá-lo), uma nova empreitada a esperava,os últimos preparativos para o casamento que seria em Maio, o mês das noivas, romanticamente escolhido por ser o mês de Nossa Senhora, o mês das coroações, dos monsenhores em flor e das rosas em profusão... a igreja estaria engalanada e ela queria muitas rosas brancas em todos os bancos.

Começou a correria, às costureiras, bordadeiras,  sapateiros e sapatarias... belos lençóis de linho sendo bordados, vestidos para todas as ocasiões, sapatos forrados pelos sapateiros e outros escolhidos a dedo nas sapatarias para combinar com os trajes. Ah, e bolsas combinando com os sapatos...
E anáguas de algodão, com barras de organdi, anáguas que seriam engomadas para serem usadas com as saias godés, franzidas ou plissadas.
Muitas vezes, se fazia necessário usar não uma, mas várias anáguas para obter o efeito desejado. Abaixo, o autêntico vestido dos anos 50 e as três anáguas que, usadas juntas, dão o efeito desejado:


                                                       E para se usar um vestido rodado, fazia-se necessário o uso de várias anáguas, por vezes feita de um tecido mais armado,quase um entretela...

 E ainda havia as combinações, camisolas longas e bordadas, robes, pijamas de seda e de cambraia, corpetes e mil outras pecinhas que compunham um enxoval de uma menina dos  Anos Dourados.

E o mais importante, o vestido de noiva, que ela queria clássico, sem frufrus, nem pérolas ou rendas... com seu rostinho de menina ficaria bem melhor em um vestido à la Audrey Hepburn, mas não, ela queria parecer mais velha e escolheu um vestido de cetim, bem colado ao corpo até a cintura e com uma saia ampla, sendo preciso toneladas de anáguas para preenchê-la.

E chegou o grande dia! Igreja adornada, pajens lindos em suas roupinhas de adultos... o irmão e uma sobrinha do futuro marido... e convidados à postos esperando a sua entrada, a menina (Cinderela?) e o seu príncipe, cobiçado pelas vizinhas e amigas???, por ser um "bom partido", pertencente a uma das mais tradicionais famílias da cidade.
 
 Sua alegria transparecia no sorriso e no olhar... seus sonhos de ter uma família, sua perspectiva de uma união"até que a morte os separe", estava se concretizando... o futuro estava se abrindo para ela que chegava, pisando devagarinho para não assustar a dona Felicidade. E o desejo maior de ter muitos filhos, uma casa repleta dos ruídos de vozes infantis, uma mesa alegre, onde a conversa seria uma fonte de perguntas e informações, e onde nada se escondia, a sinceridade seria a tônica de seu relacionamento com os filhos.

E assim transcorreu a cerimônia, com estes pensamentos a povoarem a sua romântica cabecinha.
Após o casamento a festa em sua casa e ela, atordoada,nem provou os salgados e docinhos... a vó, zelosa, fez um pratinho para ela levar na viagem.
Carro à porta, ela se trocou, beijou os pais e irmãos e partiu, rumo ao desconhecido...





Eu vou,
mas voltarei...aguardem!



Minha querida e linda sobrinha Marcela, A vida é uma eterna ciranda a nos conduzir prá lá e pracá... e em uma destas voltas viemos para Tere...

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